Joaquim Letria morreu aos 82 anos. Deixa a mulher, Berta, e dois filhos, Pedro e Miguel.

“É com grande pesar que a Âncora Editora comunica a morte do seu amigo e autor Joaquim Letria”, escreveu no Facebook António Baptista Lopes, fundador da editora que publicou “Livro de Assentos”, “A Arte da Crónica” e, em coautoria, “A Foto e o Reencontro Meio Século Depois”. Acrescentou que Letria foi “um brilhante jornalista” e “um cidadão de excelência”, sempre ao lado das causas nobres, do combate à ditadura à construção da democracia, e que perde um amigo de mais de três décadas.

Foi um dos nomes mais influentes do jornalismo e da televisão portuguesa. Participou na fundação do semanário “O Jornal”, fundou o “Tal & Qual”, dirigiu a revista “Sábado” e ganhou notoriedade como entrevistador, moderador de debates e apresentador. Trabalhou também em rádio.

Ajudou a impor o debate na televisão depois do 25 de Abril. A 6 de novembro de 1975 moderou, com José Carlos Megre, o histórico frente a frente entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. Criou e apresentou programas que misturavam entrevista, humor e entretenimento e, em 1977, recebeu o Prémio da Imprensa (Prémio Bordalo), da Casa da Imprensa, como “Figura da TV” de 1974, pela “vivacidade e o tom pessoal” que deu ao seu trabalho.

Nasceu em Lisboa, em 1943. Contraiu poliomielite aos dez anos e contou ao “Jornal de Negócios”, em 2016, que nunca imaginou aparecer na televisão por causa do estado das mãos. Filiou-se no Partido Comunista Português aos 16 anos e manteve a militância durante oito. Aos 18 entrou no “Diário de Lisboa”, primeiro em funções de apoio à direção e só depois como jornalista.

Passou pela revista “Flama” e pelo Rádio Clube Português, e trabalhou sete anos na Associated Press. Depois de um curto regresso ao “Diário de Lisboa”, mudou-se para Londres, onde esteve na BBC. Entre 1970 e 1974 foi também correspondente do “Diário de Lisboa” e do “Expresso” na capital britânica.

Só regressou a Portugal depois do 25 de Abril, como diretor-adjunto de Informação para programas não diários da RTP. Foi aí que conheceu Ramalho Eanes, então diretor de programas da estação, de quem viria a ser porta-voz no segundo mandato presidencial, entre 1981 e 1986, e a cuja campanha de reeleição se juntou. Em 1986 recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Deixou a RTP em 1975, na mesma altura que Eanes, que então presidia ao conselho de administração e se demitiu quando o seu nome foi associado a suspeitas de cumplicidade com a tentativa de golpe militar de 11 de março. Nesse ano participou na fundação de “O Jornal”, semanário assumidamente de esquerda de que foi o primeiro diretor.

Depois de uma passagem pela agência ANOP (hoje Lusa), voltou à RTP em 1978 para apresentar o telejornal do segundo canal. Criou então dois programas que juntavam informação e entretenimento e o tornaram popular, “Directíssimo” e “Tal & Qual”. Foi este último nome que deu ao semanário que lançou em 1980, depois da vitória da Aliança Democrática nas legislativas e da decisão da RTP de acabar com o programa e de o afastar da direção do canal.

Saiu da RTP em 1988, ao aceitar o convite de Pedro Santana Lopes para dirigir a “Sábado”. Ficou na direção até ao início de 1992 e continuou como cronista até ao fecho da revista, em 1993. A “Sábado” só seria relançada em 2004, já sem ele.

Regressou à RTP ainda nos anos 90 e apresentou “Cobras e Lagartos”, na Antena 1. Publicou depois vários livros, deu aulas na Universidade Lusíada e manteve-se ligado à televisão através de documentários e, a partir de 2014, da TVI. Presidiu ao Sindicato dos Jornalistas.