Com a crise na URSS e no movimento comunista internacional, Carlos Brito entendeu colocar a Álvaro Cunhal a problematização da orientação marxista-leninista do partido e, no plano interno, a questão do centralismo democrático. Para tanto foi convidado por AC a levantar o assunto no Comité Central, o que fez.

Resumindo, Brito colocou a AC uma questão e este atirou-a para o CC. E Brito seguiu o que foi indicado. Ele entendeu que era necessário discutir se os princípios estavam a alimentar ou a enfraquecer o partido, se estavam adaptados ao tempo que se vivia, se a sua aplicação tinha dado resultados ou se tinham sido causa da implosão da URSS.

A consequência é conhecida. Foi suspenso. Um grande número de militantes indignou-se, muitos saíram, outros desligaram das suas células.

É evidente que a crise do comunismo não se resolvia, nem se resolve apenas com a discussão das traves fundacionais dos partidos comunistas. Exigia e exige muito mais. Portanto, mesmo que Cunhal e a maioria da Comissão Política e do Secretariado não acompanhassem Brito, a realidade implicava discussão aberta, fraterna para acertar o caminho. Nunca sancionamentos, muito menos a quem colocou o problema no quadro partidário. E menos ainda a quem tinha o passado do militante Brito.

A verdade é esta – a partir deste episódio foi lançado uma campanha interna contra os “liquidacionistas”, sendo que neste termo cabiam todos quantos levantavam questões acerca do funcionamento do partido e da sua influência.

O chamado remédio contra os supostos desvios serviu para a direção se ver livre de militantes críticos da orientação, alguns dos quais davam o melhor de si.

Neste contexto era fundamental que os críticos saíssem e, se possível, seguissem o caminho para o PS para encontrar uma justificação para a campanha contra os desvios dos princípios. Só que desta vez o movimento era diferente, eram comunistas que queriam continuar a ser comunistas e não o conseguiam ser no PCP face ao clima reinante. Ou seja, para a direção só é comunista quem for leninista e seguir o centralismo democrático, mesmo após a implosão da URSS.

É aqui que bate o ponto, pois quem reparar a discussão de muitos em defesa da Nota de Imprensa vai no sentido que Brito não merecia porque passou a ser social-democrata, quase traidor, ou mesmo traidor, e até aparece uma fotografia com Mário Sores…

Brito não aderiu ao PS, nem à social-democracia e se quisesse tê-lo-ia feito. Tinha a sua conceção de partido comunista. E não se trata de concordar ou discordar em várias destas matérias importantes. Os comunistas são poucos para tarefa tão grande – resgatar a causa comunista.

O que estava em causa na hora da partida de um combatente era reconhecer o seu destacadíssimo exemplo de luta pela liberdade e pela democracia dentro do PCP e afirmá-lo de cara lavada. Brito honrou o PCP. Divergiu, mas as prisões e as torturas ninguém lhas tira, ainda por cima ao serviço do PCP e da liberdade dos portugueses.

Haverá politicamente quem se aproveite. Seguramente. Haverá quem o faça por oportunismo. Com certeza. Mas Brito foi grande porque o seu partido o educou na grandeza, na força das convicções. Como pode alienar um dos seus, mesmo que com divergências? Quantos dos atuais dirigentes do PCP entrariam na clandestinidade, abandonariam tudo para prosseguir a atividade partidária ao serviço da liberdade e da democracia?

O facto de Brito considerar dever discutir se o marxismo-leninismo é a melhor orientação para um partido comunista não lhe retira o que ele fez pelo partido e pela revolução e não apenas pela vida parlamentar como afunila a Nota. E discutia cara na cara o que pensava ser o melhor para o partido. Mostra que estava no partido por convicção e não por carreirismo.

Cada um segue o seu caminho, mas nesse caminho as vistas dão para ver o que se fez e o que não se fez. Não aceitar que possa haver comunistas que assim se consideram e não estão inscritos no PCP é uma miopia muito grave do partido, designadamente, no caso de Brito, pois a direção que suspendeu Carlos Brito por querer discutir se aquela orientação era a melhor.

A direção do partido só ganharia em assinalar o modo como na clandestinidade educou e forjou quadros como Carlos Brito.

Parece que a direção do partido fica mais contente que um comunista saia do partido para o PS do que se mantenha como comunista, mesmo que não seja no PCP. Não há um molde único para se ser comunista. No movimento comunista há várias orientações, desde logo o maior, o da China. não segue o marxismo-leninismo.

Carlos Brito merecia na hora da morte por parte da direção do PCP mais respeito, mais humanismo, mais magnanimidade, mais coração. Não se pede a quem não tem para dar camaradagem revolucionária, mas pedia-se coragem para reconhecer que um antigo dirigente, pelo seu heroísmo, aprendido no partido, merecia a humana comoção e não uma Nota seca e azeda.

Volto ao início deste texto, cada um defende o que considera mais correto para o futuro socialista de Portugal. Os que defendem outras orientações, não são traidores, como certas opiniões querem fazer crer. São apenas opiniões diferentes. Por que não podem caber dentro do partido?

Carlos Brito é um exemplo de alguém que estava convencido de que o melhor para o seu partido era seguir outra orientação. A direção achou que por esse facto devia ser sancionado e sancionou-o. Injustamente.

Apesar de tudo, na hora da sua morte, a direção do PCP que é o repositório de todo o património político do partido, tinha o dever de por si enaltecer os feitos de Brito ao serviço do seu partido. Ao não o  fazer, afastou-se de muitos militantes, simpatizantes e eleitores do partido e de homens e mulheres progressistas. É pena.