Se se queixava apenas conseguia que a Madrasta lhe desse uma sova e tudo ficava na mesma. Com a ajuda de uma fada consegue obter alguns direitos adicionais, frágeis e temporários que apenas valem para uma limitada parcela do dia, terminando imperativamente à meia-noite e meia.

Na democracia formal em que somos forçados a viver, se não quisermos optar por fugir do país, os direitos conquistados durante o PREC foram sendo adulterados e transformaram-se em direitos Cinderela. Trata-se de um velho tipo de direitos que se confundem com estritas e forçosas obrigações.

 

A juventude, como a jovem Cinderela do conto, é obrigada a trabalhar em horários longos, em empregos precários, por salários que a deixam na pobreza e sem teto para viver. E se pretende protestar tem de parar à meia-noite e meia e fugir das ruas, como a Cinderela, para que as autoridades possam ir dormir descansadas. Se tem horários longos, por turnos e não pode protestar a horas em que as autoridades estão acordadas, tanto pior. Não se pode perturbar o sono profundo, desligado do mundo, dos políticos que povoam a Assembleia da República ou as Câmaras e Assembleias MunicipSe pretendem como as crianças mais pequenas em frente da televisão ou a brincar com os irmãos ou amigos ficar mais “cinco minutos” as autoridades não têm contemplações. Os jovens e os mais velhos têm direito a espancamentos e prisões. Este velho direito está de volta e está já mesmo firmemente implantado na sociedade. Vivam os novos/velhos direitos democráticos. Tanta coisa para fazer uma revolução no 25 de Abril para fechar o ciclo voltando ao mesmo direito ao espancamento e à prisão que já Salazar concedera e Marcelo Caetano assegurava. Tanto esforço para nada.

 

Os jovens também não têm direito a falar. Os partidos de direita e os comentadores falam por eles. Chamam-lhes arruaceiros, instrumentos nas mãos da extrema-esquerda (agora definida como sendo o PS) ou, pior, da ultraesquerda (atualmente indicada como sendo constituída pelo PCP ou o PAN). Com isso perdem o direito à palavra. Não se pode dar voz a arruaceiros, não se pode deixar pessoas instrumentalizadas pela extrema-esquerda (o PS) ou pela ultraesquerda (o PCP) abrir a boca. Aí está outro direito Cinderela. Foi atribuído aos partidos do Governo e aos comentadores da sua área política o monopólio da palavra. Os jovens ficam com o direito de falar pela boca desses senhores ou, em alternativa, ficar calados. Este direito é, também, muito semelhante ao direito que Salazar nos outorgava. Ele falava por todos. Não eram precisas mais vozes. Principalmente vindas da extrema-esquerda (o PS) ou da ultraesquerda (o PCP).

 

E o que dizem eles de substância? Que o problema vem de trás. Que se houvesse uma solução já estava implementada. Que qualquer medida eleva décadas a fazer efeito. Que significa essa cantilena? Uma única mensagem para os manifestantes: calem-se, daqui (do governo, da direita, dos senhorios) não levam nada.

 

O mais que que podemos (o governo, a direita, os senhorios) fazer, dizem-nos, é aprovar a proposta de Lei do PSD/Chega que complementa a atual lei Cristas (do PSD/CDS e Chega – cujos militantes na altura povoavam as sedes do PSD) alargando as possibilidades de despejos e de aumento das rendas. Quanto mais altas as rendas mais pessoas acedem à habitação repetem, na sua lógica senhorial, antigamente chamada lógica da batata. Quanto mais despejos mais inquilinos acedem à habitação, insistem. Parece que não percebemos que o que se trata é de despejar os inquilinos pobres, operários e da pequena-burguesia de serviços e substitui-los por inquilinos “nómadas digitais”, representantes de multinacionais e portugueses da classe media-alta. Eis a verdadeira Grande Substituição.

 

Que interessa que a Constituição de Abril garanta o direito de manifestação se existe uma Lei anterior que decreta o recolher obrigatório do manifestante à meia-noite e meia? Que interessa que o direito à Habitação aí esteja consagrado, se ele se resume ao direito dos senhorios fazerem o que bem lhes apetece? Que interessa que o direito a exprimir as suas ideias esteja consagrado na Constituição se o Governo já nos atribuiu um conjunto de porta-vozes /comentadores encartados que falam por nós?

 

Que interessa que Portugal tenha assinado várias convenções e tratados internacionais em que se compromete a implementar o direito de expressão e o direito de manifestação? Nada. Aqui implementamos os direitos Cinderela (que também era humana). Se em França Macron se viu obrigado a decretar o recolher obrigatório enfrentando por isso uma contestação generalizada, em Portugal temos um recolher obrigatório permanente a partir da meia-noite e meia. Ajuntamentos de mais de duas pessoas podem (i)legalmente ser varridos pela polícia, na mais pacífica e completa anuência dos meios de comunicação social (que em tempos se dizia serem os guardiões do pluralismo de expressão e que hoje percebemos ser tal crença apenas uma anedota) e dos seus comentadores.

 

Que democracia é esta em que vivemos? Será de devemos defender esta democracia? Ou a questão é de como criar uma verdadeira Democracia no lugar da atual democracia? Sem jogos de palavras.