Estas situações levam a que, já no 1º de Maio de 1975, estivessem presos dezenas de camaradas em vários estabelecimentos prisionais, com um destaque particular à resistência ferrenha das camaradas presas em Tires.

As desculpas esfarrapadas que os social-fascistas, mais tarde, incluindo o próprio Otelo, encontram para justificar a perseguição ao MRPP variam inconsistentemente entre as campanhas contra a embarcação dos soldados e marinheiros para as colónias, acusando o MRPP de desestabilizador e de possuir armas, algo que nunca foi provado!

o mesmo não pode ser dito sobre outros grupos pseudo-revolucionários que assumidamente tinham armas e que não foram alvo de perseguições.
Em 1974, o MRPP toma a decisão de se legalizar como partido, e fá-lo junto ao Supremo Tribunal de Justiça, a 18 de fevereiro de 1975.
A intentona fascista falhada no 11 de março, é aproveitada pelo PCP e forças a ele ligadas para ganhar influência no governo e instaurar uma autêntica ditadura militar, e três dias depois é alterada a lei dos partidos, para - sob o contexto da confundibilidade dos símbolos - impedir o MRPP de usar a foice e o martelo.
A 17 de março as autoridades político-militares, a mando do PCP, suspendem a atividade política do MRPP, proibindo qualquer tipo de iniciativa política, desde a circulação do jornal à realização de comícios, algo que o partido nunca aceitou fazer. Proíbem-no também de ir às primeiras eleições ditas “livres”, onde foi aprovada a constituição portuguesa.
A 11 de abril é assinada a reacionária aliança MFA-Partidos, que o PCP usaria para substituir a aliança operário-camponesa, aliança que visava a imposição aos partidos de todas as medidas que o MFA quisesse colocar na Constituição, designadamente o controle sob a atividade dos partidos. O MRPP opôs-se fortemente a esta aliança reacionária e é aí que é marcada com clareza a oposição do MRPP às autoridades político-militares.
A chamada “Operação Turbilhão” é pela primeira vez proposta na reunião coordenadora do MFA pelo coronel Varela Gomes, quadro do PCP na altura, que faz mais do que uma simples intervenção em defesa dessa proposta, chegando até a defender a liquidação dos militantes do MRPP.
Depois de aprovada na reunião coordenadora, vai à assembleia do MFA onde é também aprovada, e depois é enviada para o III governo provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, onde é aprovada por todos os ministros (exceto Mário Soares, apenas devido à sua ausência): Vasco Gonçalves; Álvaro Cunhal; Joaquim Magalhães Mota; Francisco Pereira de Moura; Silvano Ribeiro; António de Almeida Santos; António Arnao Metello; Francisco Salgado Zenha; Mário Murteira; José Joaquim Fragoso; Ernesto Melo Antunes; José Augusto Fernandes; José Emílio da Silva; Fernando Batista; José da Silva Lopes; João Cravinho; José da Costa Martins; Jorge Sá Borges; Álvaro Veiga de Oliveira; Jorge Correia Jesuíno
O pretexto dado para esta operação, foi o golpe dado por Saldanha Sanches, que aproveitando a ausência do camarada Arnaldo Matos e de outros membros da direção, decide levar a cabo uma operação no RALIS com o capitão Quinhones de Magalhães, o Tenente-Coronel Leal de Almeida e o Capitão-Tenente Costa Xavier, todos indivíduos do partido social-fascista, com que a linha negra de Saldanha Sanches simpatizava. Estes prendem e espancam violentamente o Soldado-Comando Marcelino da Mata, acusado de cometer crimes de guerra.
A Operação Turbilhão é levada a cabo às 22 horas pelo Criminoso de Guerra Jaime Neves, na típica forma de terror dos comandos, entraram aos tiros na sede da Bica. Em todos os locais associados ao MRPP onde passaram, destruíram e roubaram todos os materiais, e no caso de Coimbra e Famalicão, chegaram a incendiar a sede. Os detidos são alvo de extrema violência e até de insultos raciais. Uma das carrinhas que levava os presos é conduzida para o meio de uma manifestação hostil ao MRPP.
É de destacar que na sede da Associação de Amizade Portugal-China, para além da pilhagem de uma vasta coleção cultural e histórica, foi presa a camarada Albertina Matos, companheira do camarada Arnaldo Matos, juntamente com a sua filha, Graça, de seis anos.
Chefiados por um indivíduo do RALIS que tinha tirado as divisas do uniforme, foram à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com uma lista de nomes, onde não conseguiram encontrar ninguém, facto que gerou tamanha frustração, que partiram a porta (destrancada) e a luz da sala do conselho escolar. À saída, prenderam duas camaradas que identificaram como presentes na manifestação do RALIS no 11 de março. É de assinalar que um camarada se atirou para a frente da carrinha em protesto pela detenção.
As ordens demoram dois dias a chegar às Ilhas, onde os militantes e simpatizantes são presos e enviados em aviões militares para Caxias.
Há camaradas que são procurados em casas em que viviam antes do 25 de abril, e que tinham sido deixadas logo após o 25 de abril, casas que constavam nos ficheiros da PIDE. Ficheiros que desaparecem pouco tempo após o 25 de abril, (que mais tarde se veio a saber, (através de um livro escrito por Oleg Kalugin ex-General do KGB, tinham ido lá parar os ficheiros de militantes do MRPP) admitidamente por mão dos social-fascistas, através da Comissão de extinção da PIDE, com o intuito de reprimir o MRPP.
São presos 432 militantes e simpatizantes do MRPP, a maioria dos quais levados para Caxias e Pinheiro da Cruz, sendo também levados para Tires, Santarém, Elvas e Trafaria.
Em Caxias, os presos foram divididos em três celas sobrelotadas, duas de homens, e uma de mulheres e crianças.
Os carcereiros começam a atacar as celas, onde se fizeram barricadas com as camas. É usada uma mangueira de alta pressão que inunda as celas até aos joelhos, são disparados tiros e há ameaças de granadas.
Há ainda espancamentos que resultam em ossos, dentes e cabeças partidas.
É planeada uma greve de fome que dura 18 dias, sem um único furo, havendo até casos de tentativas de forçar comida pela garganta dos presos. Tudo isto, sem nunca haver presença de médicos ou advogados, sem visitas das famílias e sem mudanças de roupa.
Gera-se um movimento popular contra as prisões, que anda lado a lado com a luta pela jornada das 40 horas, luta que o MRPP encabeça. São aprovadas moções exigindo a libertação dos presos na TAP, CTT, Sapec, Hosp. Júlio de Matos, CTM, BIP, Direito, Coimbra, Camões, Cometna, TIMEX, Jotocar, FNMAL, Dialap, MAGUE, Efacec, Comel e nos TLP, onde é aprovado o arranque imediato de uma manifestação contra as prisões e pela semana das 40 horas.
Violentamente torturados lá dentro, enquanto as grandes manifestações à porta das prisões, crescem em tamanho dia após dia, e são corridas a tiro pelos famosos herois da democracia burguesa.
No decorrer de todos estes acontecimentos, levantou-se uma única voz no parlamento, a do Dr António Arnaut que questionou a prisão do seu amigo Arnaldo Matos, contra a bancada do seu partido. Pergunta que impôs um silêncio tal que não obteve resposta.
O camarada Arnaldo Matos é evacuado para o Hospital Militar, à beira da morte, com um buraco no estômago, e é escapado por um grupo de soldados da Polícia Militar.
Este foi o acontecimento chave que levou à libertação de todos os anti-fascistas presos.
A 18 de julho de 1975, são libertados todos os anti-fascistas presos, a tropa é obrigada a restaurar o património destruído e roubado, e de levar os militantes e simpatizantes, com as mesmas camionetes que os havia prendido, a tempo de chegarem ao grandioso comício no Campo Pequeno.
Esta data marca o primeiro prego no caixão do social-fascismo, que viria depois a ser derrotado no 25 de novembro.
Carta do Camarada Arnaldo Matos às presas de Tires:
Às valentes mulheres do nosso movimento encarceradas em tires Lisboa, 1º de Maio 1975
Não é apenas a Mulher trabalhadora portuguesa, carregando nos ombros o fardo de séculos e séculos de exploração e humilhação, que renasce em vós e na vossa luta, é toda a classe operária que se revê orgulhosa no combate dos seus filhos e é todo o povo que através de vós ergue a cabeça e caminha para o amanhã do novo dia.
A bandeira vermelha de Ribeiro Santos está bem Entregue nas vossas mãos, nunca a deixareis cair.
O povo e o partido libertar-vos-ão.
Calorosas saudações comunistas.
Arnaldo Matos.
pctpmrpp
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