A história de Bethsaida cruza-se com a de Flávio Josefo, o cronista judeu do século I que descreveu a transformação da aldeia de pescadores numa cidade romana chamada Julias. Até aqui a dúvida permanecia. Estaria a antiga aldeia submersa pelo rio Jordão, como muitos acreditavam? A nova investigação mostra que não. O terreno manteve-se habitado durante os séculos do tempo de Jesus, escondendo sob sucessivas camadas a memória de uma comunidade onde nasceu parte do colégio apostólico.
As fontes bíblicas também oferecem pistas que ganham força com estas descobertas. O Evangelho de João recorda que Filipe era natural de Bethsaida, a mesma terra de Pedro e André. O próprio Jesus terá passado ali, multiplicando pães e peixes para uma multidão. Milagre que liga a pequena aldeia à dimensão universal da fé cristã. A arqueologia, ao confirmar a importância da localidade, ajuda a dar consistência histórica a narrativas que há séculos alimentam a espiritualidade de milhões.
Os achados revelam ainda a passagem de várias civilizações por aquele espaço. Estruturas bizantinas sobrepostas a vestígios romanos contam a história de um lugar que foi ponte entre culturas e impérios. O Lago da Galileia funcionava como centro de comércio e via de comunicação. Bethsaida, situada na confluência entre águas e caminhos, tornou-se um cruzamento onde a vida simples de pescadores se misturou com a grande política de Roma. Um cenário que ajuda a compreender porque dali saíram homens que transformariam a história do mundo.
Mais do que pedras e mosaicos, estas descobertas devolvem vida a um lugar que parecia perdido. A aldeia humilde de pescadores que se tornou palco de fé e missão volta a ser visível. Entre cinzas e escavações, a arqueologia aproxima fé e história, recordando que por detrás de cada tradição existe sempre um chão, um rio, um pedaço de vida real.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor