Dessa decisão resultaram conversões forçadas e perseguições violentas que deram origem à figura dos chamados cristãos-novos. Estes foram proibidos de abandonar o país e, a partir de 1536, passaram a ser perseguidos pela Inquisição.
Por decreto de 1496, D. Manuel I ordenou a expulsão de judeus e mouros até outubro de 1497, sob pena de morte.
Contudo, procurando impedir a fuga de capital humano e financeiro, o monarca dificultou deliberadamente a saída dos judeus. Em 1497 promoveu batismos forçados, chegando mesmo a separar crianças dos pais. A maioria dos judeus acabou obrigada a converter-se ao cristianismo, passando a ser designada como cristãos-novos, ou marranos. Muitos continuaram, porém, a praticar o judaísmo em segredo. É deste contexto histórico que surge, segundo várias tradições populares, a criação da alheira de aves, utilizada para simular hábitos alimentares cristãos.
Criou-se então um ambiente social e cultural profundamente hostil aos judeus e aos cristãos-novos. Esse clima conduziu ao Massacre de Lisboa de 1506 e consolidou-se com a instalação oficial da Inquisição em 1536, desencadeando uma nova diáspora portuguesa que se prolongaria até 1821.
«No mosteiro de São Domingos existe uma capela, chamada de Jesus, e nela há um Crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que deram foros de milagre, embora os que se encontravam na igreja julgassem o contrário. Destes, um Cristão-novo julgou ver somente uma candeia acesa ao lado da imagem de Jesus. Ouvindo isto, alguns homens de baixa condição arrastaram-no pelos cabelos para fora da igreja, mataram-no e queimaram logo o corpo no Rossio.
Ao alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade dirigiu uma pregação incitando contra os Cristãos-novos. Após isso, saíram dois frades do mosteiro com um crucifixo nas mãos, gritando: “Heresia! Heresia!”.
Isto impressionou uma grande multidão de estrangeiros, marinheiros vindos da Holanda, Zelândia, Alemanha e outras paragens. Reunidos em número superior a quinhentos, começaram a matar os Cristãos-novos que encontravam pelas ruas. Os corpos, mortos ou meio vivos, eram queimados em fogueiras acesas na Ribeira e no Rossio.
Na tarefa ajudavam escravos e moços portugueses, transportando lenha e materiais para alimentar as chamas. Nesse Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas.
[...] Na Segunda-feira, continuaram as matanças com ainda maior crueldade. Invadiram casas, arrastaram famílias inteiras para as ruas e lançaram vivos e mortos nas fogueiras, sem piedade.
[...] Executavam crianças de colo, despedaçando-as ou esmagando-as contra paredes.
[...] Na Terça-feira, prosseguiram os massacres, embora já houvesse menos vítimas para encontrar. Calcula-se que tenham perecido mais de mil e novecentas pessoas.
[...] Muitos culpados foram posteriormente presos e executados. Quanto aos dois frades que incitaram o massacre, foram destituídos das ordens religiosas e queimados por sentença.»
“Vi que em Lisboa se alçaram
povo baixo e villãos
contra os novos christãos,
mais de quatro mil mataram
dos que houve ás mãos;uns d'elles vivos queimaram,
meninos despedaçaram,
fizeram grandes cruezas,
grandes roubos e vilezas
em todos quantos acharam.[...]
muitos foram justiçados,
quantos acharam culpados,
homens baixos e bargantes,
e dois frades observantes,
vimos por isso queimados.”
Em 2015, Portugal aprovou uma lei que permitiu a concessão da nacionalidade portuguesa aos descendentes dos judeus sefarditas expulsos. O processo originou mais de 100 mil pedidos de nacionalidade.
Entre os requerentes encontrava-se o magnata russo-israelita Roman Abramovich.
Recordo-me de um enorme iate atracado junto a Santa Apolónia. Pela manhã, crianças saíam acompanhadas por dois seguranças gigantescos e brincavam no cais. Quando perguntei quem eram, responderam-me: “São as crianças do Abramovich.”
O iate possuía ainda dois helicópteros imponentes, simbolizando uma fortuna colossal.
Sou socialista autogestionário e rejeito certos discursos superficiais de “anticapitalismo” que ignoram a realidade extrema da concentração de riqueza global.
O boom da Inteligência Artificial impulsionou grande parte destas fortunas. Sete das dez maiores riquezas do planeta estão ligadas direta ou indiretamente ao setor tecnológico e da IA.
O relatório da Forbes de 2026 aponta para um número recorde de 3.428 bilionários no mundo, impulsionado pela valorização dos mercados financeiros.
Enquanto isso:
Mozambique continua entre os países mais pobres do mundo. Cerca de 81% da população vive com menos de três dólares por dia.
Entre os fatores estruturais que perpetuam a pobreza destacam-se:
As mulheres detêm pouco mais de um quarto do rendimento global do trabalho.
Segundo o Jerusalem Post, Abramovich foi descrito como “megafilantropo” e defensor da cultura judaica. Terá doado mais de 500 milhões de dólares para causas judaicas em vários países.
Em 2015, doou cerca de 30 milhões de dólares à Tel Aviv University para um centro de nanotecnologia e apoiou instituições médicas israelitas.
Mas a origem da sua fortuna continua envolta em polémica.
Abramovich construiu parte do seu império após adquirir a petrolífera Sibneft, antiga empresa estatal russa, nos anos 1990, por cerca de 250 milhões de dólares. Em 2005 vendeu-a por aproximadamente 13 mil milhões.
Segundo a BBC, Abramovich admitiu em tribunal britânico ter realizado pagamentos corruptos relacionados com o negócio da Sibneft.
Documentos citados pela BBC alegam que o Estado russo terá sido lesado em milhares de milhões de dólares e que investigações sobre fraude terão sido travadas durante o período de poder de Boris Yeltsin.
Após a invasão russa da Ukraine em 2022, Abramovich envolveu-se em tentativas de mediação entre Moscovo e Kiev, alegadamente a pedido de representantes ucranianos e com conhecimento de Vladimir Putin.
Em março de 2022 surgiram relatos de possível envenenamento de Abramovich e de negociadores ucranianos durante reuniões próximas da fronteira com a Bielorrússia.
Entretanto, muitos preferem ignorar as complexidades geopolíticas do Médio Oriente e o poder acumulado pelas monarquias petrolíferas.
Hoje, um dos homens mais poderosos da Saudi Arabia é Mohammed bin Salman.
Para consolidar o poder, centenas de figuras influentes foram detidas numa vasta operação anticorrupção. Contas bancárias foram congeladas e as autoridades sauditas alegaram recuperar mais de 100 mil milhões de dólares ligados a corrupção.
Entre os detidos encontravam-se:
Importa também recordar que Portugal teve figuras intelectuais profundamente ligadas à Rússia, como António Nunes Ribeiro Sanches.
Ribeiro Sanches foi um dos nomes maiores do pensamento iluminista europeu. Serviu como médico da corte russa e foi nomeado Conselheiro de Estado pela imperatriz Elizabeth Petrovna em 1744.