Uma politica nova Sul-Sul

Durante décadas, no Brasil quase tudo era medido pela régua e esquadro dos Estados Unidos e assim se  a economia estadunidense espirrava, logo se imaginava  o Brasil com uma pneumonia.  

Em nada verdadeira ela se tornou anacrônica.

O mundo mudou e Trump parece incapaz de compreender essa mudança.

A diplomacia Sul-Sul, na qual o presidente Lula da Silva e Celso Amorim apostam  desde o primeiro mandato, produz resultados que talvez nem seus maiores defensores imaginassem.

O crescimento das exportações brasileiras para China e Índia, mas também para mercados maduros, como a Europa, que já supera em mais de seis vezes as perdas provocadas pelas tarifas americanas, é apenas um dos indicadores de uma transformação muito mais profunda.

O Brasil deixou de depender de um único mercado e passou a dialogar com um planeta muito mais amplo.

Esse movimento é fruto de uma estratégia consistente de política externa desenvolvida por Lula que compreendeu, ainda nos anos 2000, que o século XXI seria marcado pela ascensão dos países em desenvolvimento.

Foi por isso que fortaleceu o Mercosul, aproximou-se da África, ajudou a consolidar os BRICS e fez da cooperação entre os países do Sul Global um dos pilares da diplomacia brasileira.

Na época, muitos ironizaram essa opção mas hoje, comem e calam pois os números respondem melhor do que qualquer discurso.

A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil e, mais importante, um mercado praticamente insubstituível para produtos brasileiros.

A expansão das vendas para aquele país compensou sucessivas crises internacionais e abriu espaço para novos investimentos.

O mesmo fenômeno começa a ocorrer com a Índia, cuja economia figura entre as que mais crescem no planeta.

Em poucos anos, o mercado indiano deverá desempenhar um papel semelhante ao que a China desempenhou na década passada.

O  Sudeste Asiático desponta como uma das regiões mais promissoras do mundo. Indonésia, Vietnã, Malásia, Tailândia e outros países da Asean ampliam rapidamente o seu rendimento e o seu consumo.

A Ásia Central também surge como uma nova fronteira comercial.

O Cazaquistão e o Uzbequistão já aparecem entre os destinos estratégicos para as exportações brasileiras.

São mercados que simplesmente não existiam no radar da diplomacia tradicional.

Trump continua a sonhar  que os Estados Unidos podem impor sua vontade ao restante do planeta por meio de tarifas.

Ora as  próprias tarifas impostas pelo governo estadunidense vieram acompanhadas de milhares de exceções.

A razão é simples: uma aplicação indiscriminada elevaria o custo de inúmeros produtos consumidos pelos próprios estadunidenses.

Em outras palavras, a Casa Branca precisou de preservar cadeias produtivas e proteger seus consumidores dos efeitos de sua própria política comercial.

Os prejuízos economicos para o Brasil existem, mas são pequenos face à  capacidade de reação construída ao longo dos últimos anos.

Enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram, os novos mercados absorveram volumes muito maiores de produtos brasileiros.

Mais do que atingir a economia brasileira, as tarifas trumpistas no Brasil  sao uma tentativa de produzir efeitos políticos internos, pressionando o governo Lula e procurando influenciar as eleições brasileiras.

Goste Trump ou nao o mundo é bem mais que  Washington ou a Casa Branca  e o comércio mundial não gira apenas à volta dos Estados Unidos.

O mundo é muito maior. Muito mais vasto. E, felizmente para o Brasil, Lula e Celso Amorim enxergaram antes esta grande transformação.

É o Sul-Sul a crescer fora das dependências atlantistas ou asiaticas abrindo as portas ao multilateralismo e fazendo recordar os Nao Alinhados dos anos 50 com ChouenLai, Nehru e Ben Bella entre outros!