Essa realidade está a mudar. A União Europeia e o Canadá atravessam hoje uma das fases de maior aproximação da sua história recente. E aquilo que durante muitos anos foi essencialmente uma relação entre economias desenvolvidas com afinidades políticas transformou-se progressivamente numa parceria estratégica que começa a entrar em domínios até há pouco reservados aos parceiros europeus mais próximos.
O ponto de viragem tornou-se particularmente visível na Cimeira UE-Canadá de 23 de junho de 2025, em Bruxelas.
António Costa e Ursula von der Leyen, representando a União Europeia, e o primeiro-ministro canadiano Mark Carney assumiram então o objetivo de construir uma parceria mais abrangente para responder a um contexto geopolítico e económico em rápida transformação. Nessa cimeira foi assinada uma Parceria de Segurança e Defesa entre a União Europeia e o Canadá, abrangendo áreas como gestão de crises, indústria de defesa, ameaças híbridas e mobilidade militar.
Foi mais do que diplomacia.
Em fevereiro de 2026, Canadá e União Europeia assinaram um novo acordo que permitiu a participação canadiana no SAFE — Security Action for Europe, instrumento europeu destinado a financiar compras conjuntas e aumentar a capacidade industrial de defesa.
Em junho, o Conselho da União Europeia concluiu formalmente esse acordo.
O significado político é relevante: o Canadá tornou-se o primeiro país não europeu a participar no SAFE. Empresas canadianas passaram assim a poder integrar determinadas aquisições financiadas através deste instrumento europeu.
Num momento em que a Europa procura reforçar a sua capacidade militar e reduzir vulnerabilidades nas cadeias de fornecimento de defesa, Ottawa passa assim de aliado político a participante direto numa parte da nova arquitetura industrial de segurança europeia.
A própria União Europeia descreveu o Canadá, nesse contexto, como um dos seus aliados mais próximos.
Há poucos anos, uma integração deste tipo seria difícil de imaginar.
Hoje tornou-se realidade.
A aproximação, porém, não começou nas armas.
Começou sobretudo na economia.
O CETA, o Acordo Económico e Comercial Global entre Canadá e União Europeia, entrou provisoriamente em vigor em setembro de 2017 e criou uma das estruturas económicas mais profundas entre a UE e uma grande economia desenvolvida exterior ao espaço europeu.
Os números ajudam a perceber a dimensão alcançada.
Segundo os dados atualmente publicados pela Comissão Europeia, o comércio bilateral de bens e serviços atingiu cerca de 130 mil milhões de euros em 2025, contra 72,1 mil milhões em 2016 — um crescimento aproximado de 80%. O comércio de bens atingiu 81,5 mil milhões de euros e o de serviços cerca de 49 mil milhões.
A União Europeia é atualmente o segundo maior parceiro comercial do Canadá, atrás dos Estados Unidos.
Mas há uma diferença importante relativamente ao passado.
O comércio deixou de ser visto apenas como uma questão de exportações e importações.
Passou a ser também uma questão de segurança económica.
As transformações do sistema comercial internacional fizeram com que tanto Bruxelas como Ottawa começassem a olhar para a diversificação das relações económicas como instrumento de resiliência.
É uma mudança que aparece explicitamente nos documentos oficiais.
Em março de 2026, Canadá e União Europeia voltaram a colocar no centro da relação o reforço do investimento bilateral e a diversificação comercial, relacionando esses objetivos com a segurança económica e a capacidade de resistência das duas economias.
Não se trata de substituir os Estados Unidos nem de construir um novo bloco atlântico alternativo.
Trata-se de reduzir dependências excessivas.
E aqui Canadá e União Europeia possuem interesses que se cruzam.
A Europa procura parceiros politicamente estáveis para energia, recursos naturais, tecnologia, defesa e matérias-primas estratégicas.
O Canadá procura diversificar mercados e aprofundar relações económicas para além da sua fortíssima integração com a economia norte-americana.
É nesse encontro de necessidades que a parceria ganhou nova profundidade.
Há ainda outro elemento essencial: os recursos naturais.
A transição energética, a digitalização e a indústria de defesa aumentaram exponencialmente a importância económica e geopolítica de minerais como lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras.
O Canadá possui importantes recursos minerais e uma indústria mineira desenvolvida.
A União Europeia, por seu lado, procura diversificar as cadeias de abastecimento necessárias à transição energética e tecnológica.
Bruxelas e Ottawa estabeleceram, por isso, uma Parceria Estratégica UE-Canadá sobre Matérias-Primas, destinada precisamente a desenvolver cadeias de valor mais seguras e sustentáveis entre as duas economias.
Num mundo em que controlar determinadas matérias-primas significa possuir capacidade industrial, tecnológica e até militar, esta dimensão da relação dificilmente pode ser considerada secundária.
A parceria continua entretanto a expandir-se.
Em 5 de março de 2026, Canadá e União Europeia lançaram formalmente negociações para um Acordo de Comércio Digital.
A intenção é complementar o CETA com regras destinadas ao comércio da era digital, procurando aumentar a segurança jurídica das empresas, proteger consumidores e criar um enquadramento comum para as transações digitais.
Tecnologia, inteligência artificial, cibersegurança e fluxos digitais estão, desta forma, a entrar na arquitetura de uma relação originalmente construída sobretudo em torno do comércio tradicional.
Há ainda uma dimensão menos visível, mas potencialmente extraordinariamente importante.
Desde julho de 2024, o Canadá está associado ao Pilar II do Horizon Europe, o grande programa europeu de investigação e inovação.
Investigadores e organizações canadianas podem participar em projetos colaborativos ao lado dos seus parceiros europeus em áreas que vão da saúde às tecnologias digitais, passando pelo clima, energia e indústria.
Em março de 2026, UE e Canadá fizeram um novo balanço desta associação e manifestaram interesse em aprofundar a cooperação científica e tecnológica enquanto parceiros considerados fiáveis e com interesses convergentes.
É uma dimensão estratégica frequentemente esquecida.
As alianças do século XXI não serão construídas apenas através de tratados militares.
Serão também construídas dentro dos laboratórios.
A guerra na Ucrânia acrescentou inevitavelmente uma dimensão geopolítica à relação.
Canadá e União Europeia mantêm posições convergentes quanto ao apoio à soberania e integridade territorial ucranianas e têm aprofundado a coordenação política e de segurança relacionada com a guerra e com a defesa do espaço euro-atlântico.
A geografia explica parte dessa proximidade.
O Canadá é simultaneamente um país atlântico, ártico e membro da NATO.
Isso coloca Ottawa numa posição particular numa altura em que o Atlântico Norte e o Ártico estão a ganhar renovada importância militar, económica e estratégica.
A segurança europeia já não termina necessariamente nas fronteiras da União Europeia.
E a segurança canadiana também não começa apenas no seu próprio território.
Nada disto significa que Canadá e União Europeia tenham interesses absolutamente coincidentes.
Existem divergências comerciais, questões agrícolas, diferenças regulatórias e negociações ainda abertas. O próprio CETA continua sujeito aos processos de ratificação previstos nos Estados-Membros para as partes do acordo que exigem ratificação nacional.
Mas talvez seja precisamente essa a característica mais interessante desta relação.
Não estamos perante uma aliança construída sobre entusiasmo diplomático momentâneo.
Estamos perante uma sucessão de estruturas concretas.
CETA.
Parceria de Segurança e Defesa.
SAFE.
Matérias-primas críticas.
Horizon Europe.
Comércio digital.
Uma arquitetura que vai sendo acrescentada peça a peça.
E continua a avançar.
No início de setembro de 2026, a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Anita Anand, e a alta representante da União Europeia, Kaja Kallas, voltaram a destacar os progressos alcançados desde a cimeira de 2025, incluindo a defesa, o SAFE, as matérias-primas críticas, a segurança económica e as negociações digitais. As duas partes estão agora a preparar a próxima Cimeira Canadá-União Europeia, prevista para 29 e 30 de outubro de 2026, no Canadá.
Será mais uma etapa de uma transformação silenciosa que já está em curso.
Porque o Canadá deixou de ser apenas o grande aliado norte-americano que mantinha boas relações com Bruxelas.
No contexto estratégico atual, tornou-se um dos parceiros externos com quem a União Europeia está a construir algumas das suas ligações económicas, científicas, industriais e de segurança mais profundas.
E talvez seja precisamente aí que reside a particularidade desta relação.
Num sistema internacional progressivamente marcado pela competição, pela fragmentação económica e pela incerteza estratégica, Europa e Canadá estão a descobrir que a distância entre as duas margens do Atlântico pode ser muito menor do que o mapa sugere.