Depois, veio a chuva.
O Copernicus não refere fenómenos de rios atmosféricos, mas detetou que, até março, Espanha recebeu mais 251% e Portugal quase 229% de quantidade média de precipitação, colocando os solos 31% mais húmidos do que a média
Apesar da extensão das cheias nos rios europeus ter sido a segunda mais baixa registada desde 1992, na Península Ibérica os caudais dos rios estão acima da média na primavera, em especial nas bacias hidrográficas do Tejo e do Guadiana.
O Copernicus destaca ainda a série de tempestades nas regiões central e sul da Península nos últimos seis meses, que provocaram inundações devastadoras, apesar do aumento da capacidade de armazenamento dos reservatórios em algumas áreas propensas à seca.
O total anual mais elevado de emissões de gases em 23 anos foi atingido logo na primeira semana de incêndios do último verão na Península Ibérica e, no final de agosto, Portugal registava a área queimada acumulada recorde: 265.139 hectares e algumas regiões a sofrer mais de seis dias de stress térmico extremo.
Portugal e Espanha contribuíram, assim, para atingir metade do total europeu de emissões com incêndios, estimado para o ano.
Ao longo de 2025, a Europa teve uma duração de insolação 5% superior à média, o que contrasta com níveis inferiores por todo o Mediterrâneo, incluindo a Península Ibérica.
Por sua vez, Portugal teve cobertura de nuvens acima da média nos últimos 12 meses, com as maiores anomalias observadas em fevereiro e março e, em conjunto com a costa do Báltico e do mar Egeu, 5 a 8% acima da escala normal.
Não se avizinham melhores dias. O relatório alerta que estão a aumentar as condições meteorológicas extremas propícias a fenómenos extremos, em especial no noroeste da Península Ibérica.
Tambem segundo a Associacao Zero a recente sequência de tempestades que atingiu Portugal revelou a dimensão desses impactos: os custos diretos de reconstrução ultrapassam 4 mil milhões de euros, com danos severos em habitação, infraestruturas e atividade económica. Somando perdas indiretas e necessidades urgentes de adaptação preventiva, os encargos anuais poderão aproximar-se de 6 mil milhões de eurosem 2026 – um esforço dificilmente comportável para o país que já tem que redobrar esforços financeiros para cumprir as suas obrigações, internacionalmente contraídas, de redução de emissões. Na União Europeia, segundo o referido relatório, os danos médios associados a eventos climáticos extremos ascendem já a cerca de 45 mil milhões de euros por ano (2020–2024), cinco vezes mais do que na década de 1980, confirmando a escalada dos impactos climáticos.
A Justiça climática exige financiamento reforçado que tenha em conta os mais vulneráveis hoje
Portugal e a maioria dos outros países europeus mais vulneráveis contribuíram proporcionalmente muito menos para a crise climática. Este facto deve refletir-se nos mecanismos europeus de financiamento da adaptação. A ZERO defende a criação de um Fundo Europeu de Adaptação às Alterações Climáticas, dotado de escala adequada e baseado em critérios transparentes que integrem responsabilidade histórica, capacidade económica e emissões atuais por setor – o novo quadro europeu de resiliência climática deve impor avaliações de risco harmonizadas, metas de adaptação mensuráveis e financiamento adequado à escala dos riscos.
Com menos de 2% do PIB da UE27, Portugal pode enfrentar, este ano, custos de adaptação superiores a 10% dos danos climáticos médios anuais da União, o que torna indispensável um mecanismo de solidariedade europeia.