A História tem um estranho hábito de nos convencer de que aquilo que aconteceu era inevitável.
Olhamos para trás e parece-nos impossível imaginar Portugal sem Salazar à frente do Estado Novo, como se o professor de Coimbra tivesse caminhado sozinho para o poder, sem rivais, sem alternativas e sem que o destino pudesse ter escolhido outro protagonista.
Mas a verdade é muito diferente. Houve um tempo em que muitos portugueses olhavam para outra figura com igual ou maior expectativa. Não era um académico. Não era um financeiro. Não era um político profissional. Era um general cuja vida parecia reunir todas as qualidades que um país cansado da desordem procurava: coragem, prestígio, autoridade, inteligência e uma obra feita. O seu nome era João de Almeida.
Hoje, quase ninguém fala dele. E, no entanto, se perguntarmos quem foi responsável por uma parte decisiva da definição da fronteira meridional de Angola, quem administrou territórios africanos com reconhecida competência, quem arriscou a vida inúmeras vezes nas campanhas de África, quem chegou a ministro, quem revelou igualmente talento como empresário e quem, depois do 28 de Maio de 1926, era apontado por muitos como um possível Presidente do Conselho de Ministros, a resposta conduz-nos sempre ao mesmo homem.
Poucas biografias portuguesas conseguem reunir tantas vidas numa só. João de Almeida começou por estudar Filosofia e Engenharia Civil na Universidade de Coimbra, formação que lhe deu um método de pensamento rigoroso e uma capacidade de organização pouco comum. Poderia ter seguido uma carreira técnica confortável. Preferiu a farda. E foi nela que construiu uma reputação que rapidamente ultrapassou os quartéis.
África transformou-o. Ou talvez seja mais correto dizer que foi em África que Portugal descobriu verdadeiramente João de Almeida. As campanhas militares colocaram-no diante de perigos permanentes, doenças, longas marchas, emboscadas e combates em condições extremas. Houve momentos em que a morte esteve perigosamente próxima e em que bastaria um pequeno acaso para que o seu nome figurasse apenas entre tantos oficiais tombados nas campanhas ultramarinas. Sobreviveu. E dessa sobrevivência nasceu uma lenda.
Não por acaso, ficou conhecido como o "Herói dos Dembos". Não era apenas um comandante que sabia vencer batalhas. Era também um administrador capaz de transformar territórios, compreender populações e pensar estrategicamente o futuro da presença portuguesa em África. Foi-lhe confiada uma das mais delicadas missões da política ultramarina portuguesa: consolidar a fronteira meridional de Angola numa época em que as grandes potências europeias disputavam cada parcela do continente africano. Aquilo que hoje observamos num mapa parece uma simples linha. Naquele tempo, essa linha representava diplomacia, autoridade, estratégia militar e capacidade política.
João de Almeida deixou nela uma marca duradoura.
Seria injusto, porém, vê-lo apenas como um militar. Terminada a fase mais intensa da sua carreira nas armas, demonstrou possuir uma rara capacidade de gestão, assumindo responsabilidades em importantes empresas portuguesas. Presidiu conselhos de administração, dirigiu companhias e provou que a liderança não dependia exclusivamente do uniforme. Poucos generais da sua geração conseguiram afirmar-se simultaneamente como militares, administradores públicos e empresários de sucesso.
Entretanto, Portugal vivia um dos períodos mais turbulentos da sua História. A Primeira República acumulava crises políticas, governos efémeros, instabilidade social e dificuldades financeiras. O descrédito das instituições crescia e, para muitos portugueses, apenas um homem de autoridade poderia devolver ao país a estabilidade perdida. Quando a Ditadura Militar surgiu na sequência do movimento de 28 de Maio, ninguém sabia quem seria o verdadeiro líder do novo regime. Havia vários candidatos naturais. Entre eles, destacava-se João de Almeida.
O seu currículo impressionava. Era respeitado no Exército, possuía experiência governativa, tinha prestígio junto de amplos setores conservadores, revelara competência administrativa em África e conquistara notoriedade nacional. Não surpreende, por isso, que o seu nome fosse frequentemente referido como uma solução credível para chefiar o Governo. Tudo parecia apontar para um militar consagrado.
Mas a História gosta de surpreender.
Enquanto os olhares se concentravam nos generais, um professor de Economia da Universidade de Coimbra ia conquistando espaço com uma estratégia completamente diferente. António de Oliveira Salazar nunca teve o carisma militar de João de Almeida, nunca comandou tropas em campanha nem construiu a sua autoridade no campo de batalha. A sua força encontrava-se noutro lugar: na disciplina financeira, na paciência política e numa capacidade extraordinária para tornar indispensável um homem que parecia não desejar o poder.
Foi essa a diferença decisiva.
João de Almeida representava a autoridade visível. Salazar representava a autoridade silenciosa. Um impressionava pela biografia; o outro pela eficácia. Um chegava através da espada; o outro através da caneta. Um parecia destinado a governar; o outro acabou por convencer todos de que só ele podia fazê-lo.
Se João de Almeida tivesse recebido a missão de formar Governo, talvez Portugal tivesse conhecido um regime mais assumidamente militar, com maior protagonismo dos generais e uma organização política diferente daquela que acabámos por conhecer. Nunca o saberemos. A História não permite repetir experiências.
Mas é precisamente por isso que figuras como João de Almeida merecem regressar ao debate histórico. Não porque possamos afirmar que teria governado melhor ou pior do que Salazar, nem porque possamos garantir que teria seguido exatamente o mesmo caminho. Merecem ser recordadas porque nos lembram de uma verdade frequentemente esquecida: Salazar não era inevitável.
A História de Portugal poderia ter seguido outro rumo. E esse caminho alternativo tinha o rosto de um homem que quase morreu em África ao serviço do país, ajudou a definir as fronteiras portuguesas no continente africano, revelou talento como administrador e empresário e chegou tão perto do centro do poder que, durante algum tempo, muitos acreditaram que seria ele — e não Salazar — a dirigir o destino da nação.
Talvez seja essa a maior injustiça da História. João de Almeida não perdeu uma eleição nem foi derrotado numa batalha decisiva. Foi simplesmente ultrapassado por um homem cuja forma de conquistar o poder ninguém conseguiu antecipar. E, por vezes, basta isso para que um protagonista quase desapareça da memória coletiva.
Há heróis que entram para a História porque governaram. Outros merecem ser lembrados porque estiveram suficientemente perto de a mudar.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor