Depois nadar e comer, os patos aproveitavam o dia a passear por entre as árvores e os arbustos, à procura de insetos e rebentos ou simplesmente a apanhar um pouco de Sol. Na ida, como no retorno, fazíamos uma chamada para contar os patos e confirmar que nenhum era deixado para trás. Durante a noite havia vários predadores que facilmente transponiam os muros da quinta para caçar qualquer animal desprotegido ou abandonado.
Nesse fim de tarde Primaveril, dei pela ausência da Lu, uma das patas nascidas e criadas na quinta. Procurámos à volta do lago e no pomar até que fui dar com a pata escondida num arbusto de alecrim, a chocar oito ovos. Transportámos a Lu e os seus ovos para o seu poiso na casota, onde estariam protegidos do tempo e de outros animais. Este episódio transporta-me para as caças ao ovo de Páscoa que organizámos quando a nossa filha era pequena.
Convidávamos sempre outras famílias com crianças para partilhar a diversão, até porque não é um costume Português, e as crianças deliciavam-se com o jogo e o ritual.
Hoje em dia, uma caça ao ovo parece aleatório e totalmente desnecessário, uma vez que encontramos ovos de todas as cores e tamanhos, em qualquer supermercado. Tempos houve, em que o ovo simbolizava o renascer da Natureza, na Primavera, e a sobrevivência de todos os seres ao frio Inverno.
É a história primordial do ser ou não ser A caça aos ovos de Páscoa, é uma maneira de ligar as crianças a um passado em que também nós não tínhamos a certeza de sobreviver ao Inverno, e reconectar com essa memória muscular ancestral para tempos de necessidade.
Quando bem preservados, os ovos têm um longevidade superior a qualque outro alimento no frigorífico. Isso está diretamente relacionado com a sua forma, ausente de ângulos que simula uma superfície sem fim e permite que oscilações de temperatura sejam quase imperceptíveis, no seu interior.
O ovo é uma manifestação física do Equinócio, da nova luz que este traz e que envolve e permite toda a vida. Se, no rescaldo deste período de escuridão, uma família tivesse dificuldades em encontrar alimentos, sobreviver a esta longa e fria noite tornar-se-ia numa dura provação.
Familiares, amigos e vizinhos, trocavam então presentes para ajudar e garantir a sobrevivência da sua comunidade. Eram oferendas de esperança e salvação. Apesar da noção romântica de que "todos os homens são uma ilha", não é possível viver sem partilha ou ajuda.
O cliché de que é preciso uma aldeia para educar uma criança, aplica-se à própria aldeia. Na primeira lua cheia depois do Equinócio da Primavera, há um evento celestial de uma beleza de cortar a respiração, em que a Lua brilha com a mesma intensidade do Sol nascente.
Usando o ciclo e as fases da Lua como uma metáfora da vida humana, então a lua cheia é o indivíduo completo, pleno, brilhando no auge da vida, para todos poderem ver. Mas, tal como a Lua, essa luz infinita é o reflexo de um poder superior, o Sol. Na Primavera essa luz é a própria vida, regeneração, reprodução , ressurreição, salvação, infinito e esperança. Páscoa Feliz!