O PSD, o Chega e o CDS aprovaram os projetos dos mesmos sobre identidade de género com votos contra das esquerdas e da IL
Foi revogada a legislação de 2018 e o regresso ao regime de 2011, reintroduzindo a obrigatoriedade de validação médica para a mudança de nome e género no registo civil, a proibição de tratamentos médicos em casos de disforia de género em jovens com menos de 18 anos e o uso de bloqueadores da puberdade e terapias hormonais no mesmo caso
Antonio de Sousa
Comentador/Analista político
Muito preocupados com o direito à sexualidade de cada cidadã e cidadão, PSD, Chega e CDS-PP continuam, no entanto, sem apresentar respostas eficazes face à gravidade dos crimes sexuais, incluindo casos de violação de menores que, em situações recentes, resultaram em penas suspensas profundamente questionáveis.
Apesar deste contexto, estes partidos mostraram-se satisfeitos com as aprovações consideradas controversas ocorridas esta sexta-feira, 20 de março, que impõem a obrigatoriedade de validação médica para a mudança de nome e de género no registo civil.
Os três projetos de lei foram aprovados na generalidade com votos favoráveis de PSD, Chega e CDS-PP, e com votos contra de PS, IL, Livre, PCP, BE, PAN e JPP.
No final das três votações, ouviram-se palmas da bancada do Chega e "vergonha" da do PS.
Quatro deputados do PSD - bancada que tinha disciplina de voto - anunciaram a entrega de uma declaração de voto escrita, entre os quais Eva Brás Pinho e Paula Cardoso.
No final, vários partidos anunciaram também declarações de voto orais, incluindo o líder parlamentar do PSD.
Nas votações desta sexta-feira participaram 204 dos 230 deputados, faltando, por exemplo, 11 do PSD, 10 do PS e cinco do Chega.
Uma das ausentes na votação foi a vice-presidente da Assembleia da República, Teresa Morais, que saiu antes do plenário antes da votação destes projetos e voltou a entrar a seguir.
O projeto de lei do PSD propõe a revogação da legislação de 2018 e o regresso ao regime de 2011, reintroduzindo a obrigatoriedade de validação médica para a mudança de nome e género no registo civil.
O CDS-PP quer proibir o uso de bloqueadores da puberdade e terapias hormonais em menores com disforia de género, invocando o princípio da precaução e preocupações com impactos na saúde física e psicológica, defendendo que tais decisões devem ser adiadas até à maioridade.
A proibição do uso de bloqueadores da puberdade e terapias hormonais em menores com disforia de género significa interromper o acesso a tratamentos médicos de afirmação de género para crianças e adolescentes, forçando-os a passar pela puberdade correspondente ao seu sexo biológico.
Em 2025, o Conselho Federal de Medicina (CFM) no Brasil, por exemplo, restringiu esses procedimentos, argumentando que as evidências científicas sobre segurança e eficácia a longo prazo são limitadas ou "inconclusivas", além de citar preocupações com o arrependimento.
O que implica esta proibição:
- Puberdade Biológica forçada:Adolescentes trans, especialmente meninas trans, passarão pelo desenvolvimento de características sexuais secundárias (como pelos faciais, voz grave, crescimento de seios) que não correspondem à sua identidade de género, o que pode aumentar a disforia e o sofrimento psicológico.
- Atraso na transição: Com a proibição, a terapia hormonal cruzada (uso de hormônios opostos) muitas vezes só pode ser iniciada após os 18 anos, e bloqueadores são vedados.
- Riscos à saúde mental:Especialistas alertam que a restrição pode agravar problemas psicológicos, incluindo depressão, ansiedade e aumento de casos de suicídio entre jovens trans.
- Mercado clandestino: Existe o risco de que jovens procurem tratamentos hormonais por conta própria, sem supervisão médica, o que aumenta os perigos para a saúde.
Contexto da Decisão:
A medida gerou reações de entidades médicas (como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e de direitos humanos, que a consideram um retrocesso e um ataque aos direitos das pessoas trans, defendendo que o acesso ao tratamento é essencial para a saúde mental. No entanto, outros países, como a Suécia, também adotaram posturas mais restritivas, priorizando acompanhamento psicológico sobre intervenções físicas em menores.
Em resumo, é a suspensão de um protocolo clínico que visava reduzir o sofrimento de menores trans, substituindo-o por um protocolo de não intervenção hormonal até a idade adulta.