Tributo | 17 de maio de 2026
Mas o saxofone, esse, não pára. Nunca pára. Porque os grandes artistas não morrem. Transformam-se em memória coletiva. Em canção. Em herança viva.
Da Casa dos Rapazes ao Mundo nascido a 23 de novembro de 1957, no histórico bairro do Sambizanga, em Luanda, Nanutu começou a tocar bateria aos nove anos na Casa dos Rapazes de Luanda. Depois veio o clarinete. Depois o saxofone. Não havia manual de instruções para aquela jornada, apenas havia ouvidos abertos ao som das ruas, uma sensibilidade rara e um talento que o bairro soube reconhecer antes de qualquer academia.
Na década de 70, integrou grupos emblemáticos como o Agrupamento Aliança FAPLA-Povo e o conjunto Os Merengues, onde acompanhou as maiores vozes da época de ouro do Semba. Eram tempos em que a música angolana não era apenas entretenimento — era resistência, identidade, a voz de um povo que afirmava existir.
Antes de assumir o nome artístico Nanutu, foi chamado Nandinho, alcunha dada por David Zé, uma das grandes figuras da história musical angolana. Um baptismo simbólico que antecipava o que viria: um artista que seria nomeado, reconhecido e celebrado por quem mais entendia de música.
Em 1991, Nanutu emigrou para Portugal. Tinha saído de Angola integrado num grupo em digressão europeia. Não voltou com os outros músicos. Ficou em Lisboa — e Lisboa ganhou um tesouro sem saber ainda a dimensão do que tinha recebido.
Chegou ao Pilon, casa noturna no bairro de Alcântara, um dos primeiros espaços onde tocou na cidade. E a partir daí, o mundo foi ficando cada vez mais pequeno para um talento tão grande.
Com a humildade própria dos verdadeiros mestres, continuou a estudar. Frequentou o Hot Club de Lisboa, o Conservatório Musical da República Dominicana em Santo Domingo e o Conservatório Nacional de Havana, em Cuba. Um percurso de autoexigência raro, o de um músico que, já com nome feito, continuou a aprender.
Em Portugal, tocou com Tito Paris, Luís Represas, Bonga e Paulo Flores. Internacionalmente, partilhou palco com Pablo Milanés, Martinho da Vila, Simone, Daniela Mercury, Lecy Brandão, Alicia Keys e Sting. Leia-se bem essa lista. São mundos diferentes, línguas diferentes, ritmos diferentes — e um saxofone angolano capaz de habitar todos eles com a mesma naturalidade com que a água habita qualquer recipiente.
Notabilizou-se pela capacidade única de fundir o Semba e a Kizomba com o Jazz e a World Music, tornando-se uma voz instrumental capaz de falar ao coração de culturas distintas sem trair nenhuma delas.
Há uma dimensão da vida de Nanutu que merece ser sublinhada com particular carinho: a relação profunda e duradoura com a música e os artistas de Cabo Verde.
Em entrevista ao jornal Público, Nanutu explicou essa ligação com simplicidade desarmante: "Na altura, Cabo Verde tinha o Luís Morais. Ora eu sempre estive muito ligado a músicos cabo-verdianos a partir de Angola. E quando vim para Portugal mantive esse elo."
Tito Paris, ao receber a notícia da sua morte, foi um dos primeiros a prestar tributo público. As suas palavras, publicadas na sua página no Facebook, são um retrato de uma amizade de décadas: "Saxofonista gigante. Deixou a sua alma gravada em dois discos meus. Esteve lá logo no início, no meu primeiro trabalho, Dança ma mi criola, e mais tarde no Graça de Tchega. Viajámos juntos por este mundo fora — fomos à América, a África, corremos a Europa em tantas e tantas viagens que já lhes perdi a conta." Trinta anos de cumplicidade na música e na vida.
Nando da Cruz recordou igualmente as digressões partilhadas pela Holanda, Itália, Luxemburgo e Cabo Verde, e lembrou que graças à sua influência Nanutu chegou a tocar com a mítica banda Cabo Verde Show.
Esta ponte entre Angola e Cabo Verde, dois países irmãos pelo Atlântico, pela língua e pela alma lusófona, foi uma das marcas mais belas da sua vida artística. Nanutu não era apenas um músico angolano. Era um filho de África que se movia pela lusofonia como quem regressa sempre a casa.
Nanutu deixa seis álbuns: Marés (1996), Kizofado (2000), Luandei (2005), Bisa (2009), Ximbika (2012) e Gato Vijú (2021). Cada um desses títulos é mais do que um registo sonoro. São capítulos de uma vida. São postais enviados de Lisboa para Luanda, de Angola para o mundo.
Quantos emigrantes choraram discretamente ao ouvir o saxofone de Nanutu numa madrugada de saudade? Quantos amores nasceram ao som de Luandei? Quantas famílias dançaram, sorriram e recordaram ao ritmo de Kizofado, sentindo que Angola cabia inteira dentro de uma canção?
O próprio Nanutu, numa das suas últimas entrevistas, falou com orgulho e clareza sobre o que tinha construído: "Fui o primeiro saxofonista a gravar os Clássicos da Música Angolana nos anos 80 — Muxima, Birin Birin, Belina, Negra de carapinha dura — quando ninguém cantava, e hoje toda a gente canta. Temas que serviram de separador antes dos noticiários na RNA e na TPA."
E acrescentou, com a consciência serena de quem conhece o próprio peso: "Como saxofonista angolano, não conheço nenhum que tenha neste momento um currículo como o meu, chegar onde eu cheguei e por onde eu passo, por vias próprias, sem patrocinador, sem apoios. 90% dos investimentos feitos, quer ao nível dos CDs gravados, quer ao nível da minha projecção, foram feitos pelos cachês que eu fui ganhando."
A cultura não se preserva apenas nos museus. Preserva-se no sopro de quem a transforma em música viva — e Nanutu sabia disso melhor do que ninguém.
Em julho de 2025, Nanutu foi condecorado pelo Presidente da República de Angola, João Lourenço, na Classe Paz e Desenvolvimento, durante as comemorações dos 50 anos da Independência Nacional, em reconhecimento do seu contributo extraordinário para a música angolana.
Era uma distinção justa. E chegou a tempo de ele a receber com as suas próprias mãos — o que nem sempre acontece com os grandes artistas, reconhecidos frequentemente apenas depois da partida.
Ainda assim, Nanutu nunca escondeu uma mágoa legítima em relação ao tratamento dado à sua geração. Numa entrevista que hoje ressoa como testamento: "A antiga geração de músicos, que devia ser protegida e acarinhada, penso que foi desprezada."
Palavras duras. Verdadeiras. E que devem ficar gravadas como aviso e responsabilidade para os que ficam — governos, instituições culturais, indústria musical, públicos. Os grandes artistas merecem ser reconhecidos enquanto vivem.
Nanutu não tocava apenas música, tocava pertença, tocava memória e tocava Angola e Áfricanidade, com toda a sua complexidade, beleza e ferida aberta.
Nos últimos anos, embarcou numa jornada itinerante por sete países europeus apresentando o projeto "Nanutu Sax from Angola — Cinco Décadas" — uma despedida que hoje, à luz da sua partida, adquire uma dimensão ainda mais comovente. Era um homem que sabia o que valia. E queria que o mundo soubesse também.
Hoje, as ruas do Sambizanga falam baixinho.
Os velhos discos ganham novo significado.
A resposta honesta é: ninguém, da mesma forma. Os grandes artistas não são repetíveis. São irrepetíveis. São pedaços únicos do tempo que passam por nós e nos mudam para sempre.
Descansa em paz, António Manuel Fernandes. O teu corpo partiu. O teu saxofone ficou. E continua — para sempre — a contar Angola ao mundo e as nossas festas serão sempre como sempre, com a tua Presença.
Rádio Nacional de Angola (RNA) · Observador · BANTUMEN · A Nação (Cabo Verde) · AngNoticias · Museu Virtual Cabo Verde & a Música · TV Zimbo · DJ Maquisard — "Lágrimas do Sambizanga – Semba de Dor"
Vídeo sentido de DJ MAQUISARD partilhado hoje pela minha amiga Sabira