David Ben-Gurion pertence ao grupo de líderes mundiais cujos nomes ficaram definitivamente associados à fundação dos seus países.
Em 14 de maio de 1948, correspondente ao dia 5 do mês de Iyar do ano 5708, no calendário judaico, foi ele quem leu a Declaração de Independência de Israel, numa cerimónia realizada no Museu de Tel Aviv.
Naquele dia, o Mandato Britânico da Palestina aproximava-se do seu termo legal. As forças britânicas ainda não tinham abandonado completamente o território e os Estados Unidos pressionavam no sentido de adiar a proclamação da independência.
Ben-Gurion, porém, estava determinado a concretizar aquilo que a própria Declaração apresentava como o direito natural do povo judeu a decidir o seu destino, à semelhança das restantes nações, num Estado soberano.
Foi também ele quem desempenhou um papel central na criação do conselho que proclamaria a existência do novo Estado e assumiria inicialmente a sua governação, reunindo representantes de diferentes correntes do movimento nacional judaico.
Entre as suas preocupações estava a afirmação de uma identidade nacional hebraica, incentivando inclusivamente a hebraização dos nomes dos dirigentes. Golda Meyerson, que mais tarde se tornaria primeira-ministra, passou a chamar-se Golda Meir.
A influência de Ben-Gurion esteve presente em praticamente todas as etapas da criação do Estado de Israel e prolongou-se durante os anos em que exerceu as funções de primeiro-ministro e ministro da Defesa.
Por tudo isto, continua a ser recordado em Israel como o pai da nação.
Mas o país que ajudou a fundar percorreu, entretanto, um longo caminho político, marcado por profundas transformações e por um progressivo enfraquecimento da esquerda trabalhista que dominara os primeiros anos da sua existência.
Uma das expressões atuais dessa herança encontra-se no partido Os Democratas (The Democrats), uma formação política social-democrata, sionista, situada entre o centro-esquerda e a esquerda israelita e defensora de uma solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano.
O partido nasceu em julho de 2024, na sequência da união política entre o Partido Trabalhista e o Meretz, procurando reunir forças progressistas que, durante décadas, se apresentaram como alternativas ao nacionalismo conservador e à direita religiosa.
A sua liderança pertence a Yair Golan, antigo dirigente do Partido Trabalhista, com um percurso político que inclui a participação no Knesset, o parlamento israelita, através da aliança liberal-progressista União Democrática, antes da sua ligação ao Meretz.
Com uma projeção de oito deputados nestas eleições, Os Democratas defendem uma alternativa governativa capaz de envolver partidos judaicos e forças políticas representativas dos cidadãos árabes israelitas.
É precisamente essa possibilidade que poderá tornar-se determinante na complexa negociação de coligações que se seguirá às eleições.
Uma solução desta natureza permitiria romper com a dependência política das forças ultranacionalistas e religiosas que têm sustentado os governos de Benjamin Netanyahu.
Mas conseguirão os partidos que defendem a mudança ultrapassar as suas diferenças e construir uma maioria parlamentar?
Os resultados provisórios das eleições israelitas de 27 de outubro de 2026 voltam a revelar um cenário familiar: a fragmentação parlamentar e a dificuldade de encontrar uma maioria capaz de governar.
Com aproximadamente 60% dos votos apurados, nenhum dos dois principais blocos políticos apresentava condições para alcançar, por si só, os 61 deputados necessários para garantir a maioria absoluta no Knesset, composto por 120 lugares.
O Likud, liderado por Benjamin Netanyahu, mantinha-se como o maior partido individual, enquanto o recém-formado Yashar, liderado por Gadi Eisenkot, se afirmava como a principal força do chamado bloco da mudança.
Netanyahu insiste na necessidade de formar um governo de direita forte. Eisenkot, por sua vez, interpreta os resultados como uma manifestação da vontade dos eleitores de pôr fim ao prolongado ciclo político de Netanyahu.
A disputa, porém, ultrapassa os resultados dos dois principais partidos.
A posição dos partidos árabes israelitas poderá revelar-se decisiva, particularmente se a oposição conseguir estabelecer entendimentos políticos que até agora têm encontrado fortes resistências.
Projeção correspondente ao momento da contagem apresentado no texto original, não representando resultados definitivos.
| Partido | Deputados |
|---|---|
| Likud | 27 |
| United Torah Judaism (UTJ) | 7 |
| Shas | 7 |
| Jewish Power | 7 |
| Religious Zionism | 6 |
| Amcha Israel | 0 |
| Yashar | 21 |
| Beyachad | 11 |
| The Democrats | 8 |
| Yisrael Beiteinu | 8 |
| The Reservists | 0 |
| Haredi Public | 0 |
| Joint List | 12 |
| United Arab List | 6 |
Estes números, referentes a uma fase provisória do apuramento, demonstram a dimensão da fragmentação política israelita. As projeções foram sofrendo alterações à medida que a contagem avançou, pelo que não devem ser confundidas com a distribuição final dos mandatos.
Uma das particularidades destas eleições reside no peso que poderão assumir os partidos representativos da minoria árabe de Israel.
Como assinalou Yolande Knell, correspondente da BBC, estas forças políticas poderão tornar-se decisivas na definição do resultado político das eleições.
A sua representação parlamentar poderá permitir a construção de uma alternativa à atual maioria de direita, desde que os partidos da oposição aceitem negociar uma solução de governo que inclua, ou conte com o apoio, de representantes políticos árabes israelitas.
É uma possibilidade politicamente significativa, sobretudo num país onde as relações entre a maioria judaica e a minoria árabe continuam marcadas por profundas tensões, desigualdades e divergências sobre o futuro do Estado.
Para Yair Golan e Os Democratas, a cooperação parlamentar entre partidos judaicos e árabes representa uma oportunidade de mudança.
Para Netanyahu e os seus aliados, a prioridade continua a ser a constituição de uma maioria assente nos partidos da direita e nas forças religiosas.
Entre estas duas perspetivas encontra-se a dificuldade histórica de construir governos estáveis num sistema político altamente fragmentado.
Nenhum partido conquistou isoladamente uma maioria absoluta nas eleições legislativas israelitas, tornando as coligações uma característica permanente da vida política do país.
A expectativa de mudança política não pode ser desligada da tragédia vivida em Gaza e da necessidade de encontrar uma solução política duradoura para o conflito israelo-palestiniano.
O crescimento do Yashar, com uma projeção inicial de 21 deputados, abre uma possibilidade de reorganização da oposição. Mas essa representação parlamentar, por si só, está longe de garantir uma maioria governativa ou uma alteração imediata da política israelita relativamente a Gaza.
Será necessário construir entendimentos entre forças políticas com orientações bastante diferentes, incluindo partidos que defendem posições distintas sobre a segurança de Israel, os territórios palestinianos e a solução de dois Estados.
A herança política de Ben-Gurion recorda-nos que Israel nasceu sob a liderança de um movimento trabalhista e socialista, muito diferente da direita nacionalista e religiosa que ganhou protagonismo nas últimas décadas.
Essa memória histórica merece ser recuperada, sobretudo quando se discute o futuro democrático do país e a possibilidade de uma convivência política entre judeus e árabes.
Esperemos que Eisenkot, Yair Golan e as restantes forças que defendem uma mudança consigam alcançar os entendimentos necessários para formar uma alternativa governativa.
E, sobretudo, que dessa mudança possam resultar iniciativas concretas para pôr termo ao conflito em Gaza e criar condições para uma paz duradoura, assente na segurança de israelitas e palestinianos e no reconhecimento dos seus direitos.
Israel volta a enfrentar o seu típico impasse eleitoral. Resta saber se, desta vez, a negociação parlamentar permitirá abrir um caminho político diferente daquele que conduziu o país à situação atual.