O Orelha não era “apenas” um cão. Era presença quotidiana, afeto partilhado e vínculo silencioso entre vizinhos e visitantes da Praia Brava, no norte de Florianópolis.
Durante cerca de dez anos, viveu como cão comunitário, cuidado espontaneamente por moradores que lhe davam alimento, abrigo e, sobretudo, carinho. A 4 de janeiro de 2026, essa história foi interrompida com uma violência extrema que chocou o bairro e ultrapassou fronteiras.
Segundo relatos amplamente divulgados, um grupo de seis adolescentes, com idades entre os 15 e os 16 anos, atraiu o animal para uma zona fora do alcance das câmaras de vigilância. Ali, Orelha foi brutalmente agredido com paus, pregos e outros objetos, num ato prolongado de sofrimento que culminou na sua morte. A crueldade do ataque gerou indignação imediata e transformou o caso num símbolo maior da luta pelos Direitos dos Animais no Brasil.
A revolta ganhou voz no testemunho de Vítor, autor de um vídeo que se tornou viral nas redes sociais. Num discurso emotivo e duro, Vítor rejeita a narrativa de que tudo não passou de uma “brincadeira que correu mal”. Com 15 ou 16 anos, sublinha, não se é criança. É uma idade em que se trabalha, se compreende o valor do dinheiro e, em muitos contextos, se decide o futuro coletivo através do voto. A responsabilidade moral existe, e a violência não pode ser relativizada.
Mais do que tirar a vida a um animal, o crime ceifou algo imaterial: a alegria que Orelha distribuía de porta em porta, na rua e na praia, apenas por existir. “Ele não salvou vidas de incêndios nem perseguiu ladrões”, diz Vítor, “mas salvou almas”. Num mundo acelerado e frequentemente indiferente, Orelha era um lembrete simples de bondade gratuita.
A indignação agravou-se com a denúncia de um segundo episódio: quatro dos mesmos jovens terão tentado matar outro cão, atando-lhe uma pedra e lançando-o ao mar. Desta vez, o animal sobreviveu e o ato foi filmado. Ainda assim, persistem suspeitas de que o poder económico das famílias envolvidas esteja a atrasar ou a diluir consequências judiciais, enquanto os suspeitos circulam livremente fora do país.
As autoridades policiais afirmam estar a acompanhar os movimentos dos jovens e a preparar a sua detenção à chegada ao Brasil. Até lá, cresce a sensação de impunidade — um sentimento corrosivo para qualquer sociedade que se queira justa.
O caso Orelha tornou-se, assim, um espelho desconfortável. Expõe a violência precoce, a banalização do sofrimento animal e a tentação de comprar o silêncio com dinheiro. Mas também revela o outro lado: uma comunidade que se recusa a calar, que transforma luto em mobilização e que exige justiça não por vingança, mas por dignidade.
“Com dinheiro compra-se maldade; com amor constrói-se bondade”, resume Vítor. Orelha já não passeia pelas ruas da Praia Brava, mas a sua história permanece como um marco. Um apelo claro para que a proteção dos animais deixe de ser retórica e passe a ser um compromisso efetivo, jurídico e moral.
Justiça por Orelha não é apenas justiça por um cão. É um teste à consciência coletiva.