É também nesse território que se move Luís Gaivão, nascido em Luanda, em 1948. Diplomata e escritor, Gaivão foi adido cultural da Embaixada de Portugal na capital angolana entre 1996 e 2001, período durante o qual dirigiu igualmente o Centro Cultural Português.
A sua relação com Luanda parte, portanto, de uma experiência simultaneamente pessoal e institucional: a de quem nasceu na cidade, regressou mais tarde em funções diplomáticas e procurou transformá-la em matéria literária. É precisamente essa proximidade que torna mais pertinente questionar até que ponto certas descrições da sociedade angolana reproduzem realidades concretas ou acabam por perpetuar imagens feitas, exotismos e lugares-comuns construídos ao longo de décadas.
É dessa experiência, mas sobretudo da relação com a cidade e com os seus habitantes, o ponto de partida do seu livro que acaba de publicar
"Eu nasci em Angola e é [o olhar] dum adido cultural que nasceu em Angola e que vive e sente como o angolano da rua", explicou o escritor, que nas histórias acompanha "os miúdos da rua, as vendedeiras, os candongueiros, as feiras, os mercados, os polícias naquela cidade que tem muitos feitiços e metáforas".
Curiosamente este livro é a revisão do texto original, com a eliminação de algumas histórias que o autor considera entretanto desatualizadas e a inclusão de outras recuperadas pela memória.
Embora as narrativas se situem nos anos em que viveu em Luanda, Gaivão entende que muitas das situações e formas de pensar que retrata continuam a ser reconhecíveis na Angola de hoje.
E la vem a ideia do "esquema", expressão que, segundo o autor, atravessa o quotidiano angolano e identifica as soluções encontradas para resolver problemas aparentemente sem saída perante uma sociedade que foi destruida por um sovietismo decadente que nao aguentou o expansao caotica a que se dedicou com a derrota nos EUA no ocidente.
"O esquema é um símbolo nacional e não há quem lhe escape", afirmou, lembrando que as histórias decorrem ainda durante os anos da guerra civil.
As narrativas atravessam diferentes estratos da sociedade luandense, de ministros e diplomatas a vendedores, crianças de rua e moradores dos bairros mais pobres enfim uma sociedade rasgada no seu tecido social
E nós recusamos falsos contrastes acentuados pelo diplomata o escritor em volta da magia das gentes e do lugar.
"O angolano é quente, quente da alma, reage, é alegre, está sempre a dançar", reforça o autor, sem mascarar a luta diária pela sobrevivência: "apesar de toda a tristeza e da tremenda dificuldade que é viver e subsistir naquelas terras, há uma alegria imensa, e é isso que também passa no livro, está lá muito marcado".
A cidade que emerge das "Estórias de Luanda" é também uma cidade de lendas, oralidade e forte ligação à natureza. Gaivão recupera referências à sereia Nzanga, às águas do Kwanza, à Muxima e a elementos da tradição bantu, que considera ainda muito presentes na cultura angolana.
"Essa mistura, essa miscelânea de fatores mágicos está presentíssima na cultura africana toda e, portanto, em Angola também", afirmou.
A linguagem procura reproduzir essa proximidade com a oralidade angolana, incorporando expressões e vocabulário do quotidiano, muitos dos quais são esclarecidos num glossário no final do livro.
A obra é também uma homenagem à cidade natal do escritor, no ano em que se assinalam os 450 anos da sua fundação por Paulo Dias de Novais. "Este livro é o meu presente de aniversário", escreve Luís Gaivão, na apresentação da obra.
Como descreve o escritor angolano Manuel Rui, citado na sinopse da obra : "o Rei do Congo ou o Vasco da Gama ficariam chanfunados (malucos) se lessem estas estórias, pois jamais nenhum profeta, amador ou profissional, imaginaria pensar que isto seria assim".