As manifestações começaram nos liceus e rapidamente se alargaram a universidades, professores, famílias e sindicatos, com reivindicações relacionadas com a falta de professores, as condições das escolas e o funcionamento do sistema educativo francês. A dimensão da mobilização colocou o Governo de Emmanuel Macron sob forte pressão política.
E há nesta escolha da Bastilha, voluntária ou simplesmente determinada pelas circunstâncias da manifestação, uma ironia histórica difícil de ignorar.
Stefanie Palma, que falta de juízo!
Porque se há lugar em Paris onde uma juventude em confronto com o poder ganha inevitavelmente uma dimensão simbólica, esse lugar é precisamente a Bastilha.
Durante séculos, aquela zona esteve associada ao exercício do poder, à repressão e, depois, à revolta contra esse mesmo poder.
A Bastilha de Saint-Antoine começou a ser construída no século XIV, durante o reinado de Carlos V, como uma grande fortaleza destinada a proteger a entrada oriental de Paris e a estrada que conduzia ao Castelo de Vincennes.
Era uma construção imponente, formada por oito torres ligadas por muralhas espessas. Com o passar dos séculos, deixou progressivamente de ser apenas uma estrutura defensiva e tornou-se também uma prisão de Estado.
Sob a monarquia francesa, a Bastilha passou a receber opositores políticos, escritores e personagens caídos em desgraça. Através das chamadas lettres de cachet, o poder real podia ordenar a prisão de uma pessoa sem o processo judicial que hoje consideraríamos indispensável. Foi por ali que passaram alguns dos nomes mais conhecidos da História francesa.
Voltaire foi preso na Bastilha por causa dos seus escritos e conflitos com figuras influentes da sociedade francesa.
O Marquês de Sade permaneceu ali vários anos, antes de ser transferido pouco antes da Revolução.
Nicolas Fouquet, antigo superintendente das Finanças de Luís XIV, também esteve encarcerado.
E houve ainda o famoso Homem da Máscara de Ferro, cuja verdadeira identidade continua a alimentar discussão histórica.
Jean Henri Latude tornou-se conhecido pelas suas sucessivas tentativas de fuga e pela narrativa que construiu posteriormente sobre os seus anos de prisão.
Mas foi a 14 de julho de 1789 que aquela fortaleza deixou definitivamente de ser apenas uma prisão. Transformou-se num símbolo.
Paris vivia então uma crise profunda. O preço dos alimentos, a fome, a instabilidade política e o medo de uma ofensiva do rei contra a recém-formada Assembleia Nacional alimentavam a tensão popular.
Poucos dias antes, a 11 de julho, Luís XVI demitira Jacques Necker, ministro das Finanças bastante popular entre setores da população.
Na manhã de 14 de julho, uma multidão dirigiu-se ao Hôtel des Invalides, onde conseguiu milhares de armas. Faltava, porém, aquilo que tornava esses fuzis utilizáveis: a pólvora.
E a pólvora estava na Bastilha.
Há uma curiosidade histórica que torna tudo isto ainda mais extraordinário. A prisão que se transformaria no grande símbolo da opressão absolutista tinha naquele dia apenas sete prisioneiros.
O valor da Bastilha já não estava, portanto, no número de pessoas que mantinha encarceradas.
Estava naquilo que representava.
Era a materialização de um poder real capaz de prender sem julgamento e de impor a sua vontade através de uma ordem vinda de cima.
Quando a multidão chegou à fortaleza, o governador Bernard-René Jourdan de Launay recusou inicialmente entregar as armas e a pólvora. Seguiram-se horas de confronto, com dezenas de mortos entre os atacantes.
Ao final da tarde, a guarnição rendeu-se. De Launay foi capturado e morto, sendo a sua cabeça posteriormente transportada pelas ruas de Paris na ponta de uma lança.
A tomada da Bastilha tornou-se um dos acontecimentos fundadores da Revolução Francesa.
Não porque a libertação daqueles sete prisioneiros tivesse alterado materialmente o equilíbrio político de França, mas porque, naquele dia, o povo de Paris mostrou que o poder absoluto podia ser confrontado. Talvez seja por isso que a Bastilha continue a ter uma força política tão particular.
A fortaleza desapareceu. O símbolo ficou. Parte das pedras retiradas da antiga prisão foi reutilizada, incluindo em obras associadas à Ponte da Concórdia, enquanto outras foram transformadas em pequenas reproduções da Bastilha e distribuídas por diferentes regiões francesas.
Durante a Revolução, a nova praça continuou ligada aos acontecimentos políticos do país. A guilhotina chegou a ser instalada ali em 1794, embora por um período muito curto, antes de ser transferida para a então Praça do Trono Derrubado, atual Praça da Nação.
No centro da Praça da Bastilha encontra-se hoje a famosa Coluna de Julho.
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a coluna não comemora a tomada da Bastilha de 1789. Foi erguida para recordar as vítimas da Revolução de Julho de 1830, que derrubou Carlos X. Com cerca de 47 metros de altura e coroada pelo Génie de la Liberté, o Génio da Liberdade, foi inaugurada em 1840.
E lá está ele, dourado, visível à distância, sobre Paris.
Um Génio da Liberdade precisamente no lugar onde antes se erguia uma prisão utilizada pelo poder absoluto. A História também sabe usar ironia.
A própria praça continuou a transformar-se. Durante mais de um século funcionou ali a estação ferroviária da Bastilha, inaugurada em 1859 e encerrada em 1969. O edifício permaneceu alguns anos como espaço cultural, até ser demolido em 1984 para dar lugar à atual Ópera da Bastilha.
A Ópera foi inaugurada em 1989, no quadro das comemorações do bicentenário da Revolução Francesa.
Fortaleza, prisão, revolução, estação ferroviária, ópera, praça de manifestações.
A Bastilha mudou muitas vezes de rosto, mas nunca perdeu completamente a sua carga política. Por isso, ver novamente jovens concentrados naquele espaço, num contexto de confronto com a polícia e de contestação ao poder, não pode deixar de provocar uma sensação estranha de continuidade histórica.
Naturalmente, ninguém sério confundirá os estudantes franceses de 2026 com os revolucionários de 1789. As circunstâncias, as reivindicações e o regime político são incomparáveis.
Mas os símbolos vivem precisamente porque atravessam contextos diferentes.
E aquela praça continua a lembrar a qualquer Governo francês uma realidade desconfortável: em França, a rua nunca foi apenas um lugar de passagem. Também é um lugar político.
Talvez Macron esteja agora a perceber isso perante uma juventude que protesta, resiste, ocupa o espaço público e parece pouco disposta a regressar silenciosamente às salas de aula como se nada tivesse acontecido.
A própria suspensão do uso policial de determinadas granadas durante os protestos, depois das denúncias de ferimentos graves e do anúncio de investigações internas, mostra que a contestação ultrapassou há muito a dimensão de uma simples agitação escolar. E foi esta juventude que acabou por encontrar refúgio político e simbólico junto da Bastilha.
Que lugar, Stefanie Palma! Que falta de juízo escolher olhar para estes jovens sem olhar primeiro para a História do chão onde estavam a pisar. Porque algumas praças são apenas praças.