O secretário-geral do PCP adiantou que este foi "mais um drama que ficou sem a resposta que devia ter sido dada", defendendo que revela o que tem dito há muito, que "um Estado para intervir de forma rápida, para resolver problemas de forma o mais rápido possível, tem que ter na mão as alavancas fundamentais, os setores fundamentais para poder intervir".
"Um Estado para responder não pode ter a sua produção elétrica, a distribuição elétrica e a rede elétrica nas mãos de interesses que não os nacionais. Um Estado para responder não pode ter as empresas de telecomunicações a servir tudo e todos, menos o interesse nacional. Um Estado para responder precisa de ter as alavancas na mão e, se não o tiver, fica como este está, completamente incapacitado, completamente hesitante, sem saber o que fazer, sem instrumentos para poder fazer", sustentou.
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na verdade a degradação ambiental global, na quarta-feira, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados.
A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho.
No concelho da Batalha, distrito de Leiria, um outro homem de 73 anos morreu este sábado ao cair de um telhado quando estava a reparar as telhas.
De tudo aconteceu desde quedas de árvores e estruturas, ao corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, como linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais do temporal.
Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos registados.
O Governo decretou situação de calamidade entre as 00:00 de quarta-feira até às 23:59 de dia 01 de fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.
Entretanto no final da reunião da Mesa Nacional do Bloco, o órgão máximo do partido entre convenções, Pureza quis centrar-se apenas neste tema, com uma palavra de solidariedade para com as vítimas desta depressão e de respeito a todos os elementos da proteção civil no terreno, destacando ainda a "empatia e solidariedade" das populações.
"Solidariedade e empatia que faltaram ao Governo. Se era tão preciso um gesto e uma palavra de solidariedade e de empatia, foi das pessoas, das comunidades, das populações que elas vieram, não vieram do Governo", criticou.
O coordenador do BE acusou o executivo PSD/CDS-PP de não ter encarado os avisos e alertas de terça-feira, antes da depressão Kristin, "com a seriedade e com a capacidade de resposta que um Governo competente deveria ter" e recordou o discurso destes partidos na oposição.
"O PSD foi fazendo ao longo dos anos uma campanha sistemática de denúncia daquilo a que chamou falhas do Estado - o Estado a falhar aqui, o Estado a falhar aqui - e agora isso abate-se totalmente sobre o governo do PSD e do CDS. Trata-se claramente de uma falha e de uma falha brutal", acusou.
E acrescentou que, perante as consequências trágicas para pessoas e territórios, "não há cosmética que valha".
"Os vídeos para as redes sociais ou a desculpa de que se trabalha no recato da invisibilidade não valem de nada neste contexto, há uma falha evidente por parte do Governo", insistiu, apontando o dedo aos ministros da Presidência e da Administração Interna.
Denunciou tambem o coordenador do BE existir uma estratégia por parte do primeiro-ministro, Luís Montenegro, de remeter a reparação das pessoas prejudicadas por esta calamidade "para a esfera privada, para a esfera de cada um", nomeadamente as companhias de seguros.
Pureza defendeu que "a assunção de responsabilidades" públicas e governamentais deve ser a prioridade do Conselho de Ministros extraordinário que o Governo marcou para domingo.
"A primeira coisa que tem que resultar são apoios muito concretos e imediatos às comunidades mais afetadas por esta calamidade", disse, incluindo aqui a reposição de eletricidade, água e comunicações, que têm tido "uma demora excessiva" por parte dos operadores privados.
"O apuramento servirá de pouco se não significar uma correção muito clara daquilo que são políticas para o território, para as comunidades, para a forma como se processa a ocupação da terra, para tudo aquilo que alimenta as alterações climáticas", afirmou.
O coordenador do BE apelou a que, depois desta tragédia, se reforce efetivamente o investimento na qualificação dos territórios e dos serviços.
"O Bloco crê que é muito importante mobilizar toda a sociedade portuguesa - as pessoas, a ciência, as profissões, as empresas, as correntes de opinião - para um debate sério sobre as alterações climáticas, sobre os seus efeitos, sobre o modelo económico e social que acentua os seus efeitos, sem nenhum tipo de negacionismo", apelou.