Uma descoberta científica realizada por investigadores da Universidade de Coimbra está a lançar nova luz sobre a história evolutiva das plantas com flor.

Novos frutos fossilizados de angiospérmicas, com cerca de 87 milhões de anos, foram identificados em sedimentos do Cretácico Superior numa jazida fossilífera situada junto à localidade de Seadouro, no distrito de Aveiro.

O trabalho foi desenvolvido por Mário Miguel Mendes e Pedro Miguel Callapez, investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, e centra-se no estudo de novos exemplares atribuídos ao género Endressianthus, um grupo extinto de plantas com flor já conhecido no registo fóssil europeu.

Segundo Mário Miguel Mendes, investigador do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra, os fósseis agora identificados apresentam um grau de preservação excecional. Embora a informação sobre os órgãos florais seja limitada, para além do gineceu, os espécimes revelam vestígios compatíveis com filamentos estaminais e tépalas. O elemento decisivo para a sua classificação foi, no entanto, a presença de grãos de pólen do grupo Normapolles na área estigmática.

Esta evidência permitiu aos investigadores integrar, sem margem para dúvida, as novas angiospérmicas na ordem Fagales, um grupo que inclui hoje árvores e arbustos de grande relevância ecológica e económica. Apesar de a posição taxonómica ao nível da família ainda permanecer em aberto, os fósseis apresentam fortes afinidades morfológicas com membros da família Betulaceae, onde se incluem espécies como a aveleira-comum (Corylus avellana) e a aveleira-turca (Corylus colurna).

Os cientistas admitem que estudos adicionais, recorrendo a tomografia de raios-X por radiação de sincrotrão e à comparação com flora moderna, poderão fornecer dados mais precisos sobre a filiação taxonómica desta nova espécie de Endressianthus.

Embora a presença deste género já tivesse sido reportada no Cretácico Superior português, nomeadamente nos depósitos do Campaniano–Maastrichtiano de Mira e Esgueira, a espécie agora descrita distingue-se claramente das formas anteriormente conhecidas. A sua identificação em sedimentos do Coniaciano superior confirma que este grupo de angiospérmicas estava já bem estabelecido nas floras portuguesas há cerca de 87 milhões de anos.

A descoberta ganha ainda maior relevância pelo contexto paleoambiental em que surge. Os grãos de pólen Normapolles, amplamente documentados em associações esporo-polínicas europeias entre o Turoniano e o Eocénico, são indicativos de polinização anemófila, realizada pelo vento. Este dado sugere adaptações a ambientes abertos e secos.

De facto, as novas angiospérmicas foram encontradas associadas a numerosos fragmentos de frenelopsídeos, atribuíveis à espécie Frenelopsis oligostomata, plantas consideradas indicadores de condições áridas ou semiáridas. O conjunto de evidências reforça a ideia de que estas angiospérmicas prosperavam em ecossistemas xeromórficos durante o Cretácico Superior.

Os trabalhos em curso resultam de uma colaboração internacional com investigadores do National Museum Prague e contam com financiamento do CITEUC e da Czech Grant Agency, sublinhando a relevância científica internacional desta descoberta feita em território português.