O incêndio deflagrou na tarde de terça-feira, pelas 15h00, no lugar de Ervões, concelho de Valpaços, sem registo de localidades em perigo ou de feridos até ao momento em que a informação foi avançada. As chamas espalharam-se rapidamente e, ainda na noite de terça, o fogo lavrava com três frentes ativas, obrigando ao reforço dos meios de combate no local. A Estrada Nacional 213, que liga Valpaços a Chaves, chegou a ser cortada pela GNR por razões de segurança.
Ao início desta manhã, o cenário ainda não estava resolvido. Segundo dados oficiais da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), citados pela Lusa, o incêndio mobilizava, ao início da manhã, 472 operacionais apoiados por 143 meios terrestres e seis meios aéreos, número que, poucas horas depois, subiu para 523 operacionais, mais de 130 meios terrestres e dois meios aéreos em operação. O comandante da Proteção Civil local, Marco Lucas, identificou dois pontos particularmente sensíveis: uma estação de tratamento de águas que abastece a cidade de Valpaços e um depósito de gás nas imediações.
A vice-presidente da Câmara Municipal de Valpaços, Teresa Pavão, descreveu à RTP Antena 1 a persistência de "um quilómetro de frente ativa de fogo" e dos dois focos que exigem vigilância permanente. O receio das autoridades, expresso pelo próprio comandante, é meteorológico: a previsão aponta para um agravamento do vento ao longo do dia, semelhante ao que já havia dificultado o combate na véspera.
Valpaços não é um caso isolado. É o sintoma mais visível de uma semana em que Portugal continental voltou a operar nos níveis mais altos da escala de risco de incêndio. Desde segunda-feira, todos os distritos do norte e centro de Portugal continental, e ainda Beja e Faro, encontram-se classificados em perigo máximo, estando o restante território em perigo muito elevado. Dos 278 concelhos do continente, apenas cerca de 40, maioritariamente no litoral, escapam aos níveis mais graves, uma exceção que se explica pela proximidade do mar e pela consequente amenização térmica, mas que não isenta o litoral do dever de vigilância.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tem sustentado esta classificação num contexto de calor extremo, com temperaturas máximas a chegar aos 40 graus em Santarém e Évora, 37 em Lisboa e 31 no Porto, e avisos amarelos ativos praticamente em todo o território. Esta quarta-feira, o panorama nacional mostra uma ligeira melhoria face à véspera, com dezenas de concelhos em oito distritos do norte e centro do país a permanecerem em perigo máximo, uma situação ligeiramente melhor do que na terça-feira. Mas a margem é estreita: o incêndio da Guarda, que consumiu recursos avultados desde segunda-feira, só entrou em resolução durante a madrugada.
Não é a primeira vez que Portugal se confronta, no espaço de uma semana, com dezenas de concelhos em risco máximo e milhares de operacionais mobilizados. E é precisamente essa repetição, quase cíclica, quase previsível, que tem alimentado um debate que ultrapassa a gestão operacional de cada fogo e questiona a arquitetura nacional e europeia de resposta a este tipo de crise.
Domingos Xavier Viegas, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, colocou o problema numa escala que extravasa as fronteiras nacionais, defendendo a necessidade de "uma nova reflexão dentro da Europa sobre como os diferentes países encaram a solidariedade e o auxílio comuns em matéria de incêndios". Já o investigador em proteção civil Duarte Caldeira apontou uma lacuna estrutural mais específica: a ausência, em Portugal, de "uma unidade de estudo e investigação que habilite a tomada de decisão tanto política como operacional" face à ameaça dos grandes incêndios.
É uma crítica que não é nova, mas que ganha peso renovado sempre que o país assiste, em tempo real, à mobilização de centenas de operacionais para conter um único foco. Fica também a pergunta implícita sobre se essa resposta chega tarde de mais, ou se está condicionada por um modelo de gestão do território que, no interior português, continua marcado pelo despovoamento, pela floresta descuidada e pela fragmentação da propriedade rústica. Estes são fatores estruturais amplamente identificados por especialistas florestais ao longo da última década, e que este episódio em Valpaços, como tantos outros antes dele, volta a colocar em evidência, sem que, até ao momento, se conheça uma resposta política consolidada e duradoura.
Este artigo distingue os factos operacionais confirmados por fontes oficiais (ANEPC, Proteção Civil, IPMA, autarquias), como números de operacionais, meios mobilizados, cortes de estrada e classificações de risco, da análise editorial sobre causas estruturais dos incêndios em Portugal, que reflete um debate público já instalado mas que não constitui, em si, facto verificado nesta ocorrência específica. A situação em Valpaços mantém-se ativa à hora de publicação e os números aqui reportados podem já ter sido atualizados.