No dia 16 de abril, um vídeo partilhado nas redes sociais trouxe à superfície uma realidade que muitos insistem em ignorar: a província da Huíla, frequentemente associada à seca, também enfrenta cheias.

Um condutor local relata a alegada ruptura da barragem da Umpata, no Lubango, com consequências imediatas em forma de inundações. Ainda sem confirmação oficial detalhada, o episódio levanta uma questão essencial: como é possível que territórios marcados por rios secos durante o cacimbo se transformem, em poucas horas, em cenários de inundação?

A resposta não está apenas na natureza. Está, sobretudo, na ação — ou na ausência dela. 

Angola vive um paradoxo hídrico que especialistas internacionais têm vindo a sublinhar. Segundo a Organização das Nações Unidas e o Banco Mundial, o país está entre os mais vulneráveis a fenómenos extremos, combinando secas prolongadas com cheias repentinas.

Mas há uma dimensão mais profunda, menos discutida e, por isso mesmo, mais inquietante.

Durante décadas, o ensino da geografia transmitia um princípio simples e essencial: os rios não são apenas linhas no mapa — são sistemas vivos que exigem manutenção, respeito e gestão. Aprendia-se que o Tejo, o Douro, o Mondego, o Guadiana ou o Sado tinham leitos, margens, caudais e ciclos. Aprendia-se, sobretudo, que o equilíbrio desses sistemas depende da intervenção humana consciente.

Hoje, essa lição parece esquecida.

A realidade no terreno aponta para uma falha estrutural recorrente: a ausência de desassoreamento regular. Em termos simples, trata-se de limpar os leitos dos rios, riachos e lagoas — remover lixo, sedimentos e resíduos acumulados — e garantir profundidade suficiente para que a água das chuvas seja absorvida e conduzida de forma segura.

Sem essa intervenção, os rios perdem capacidade de retenção. E quando chegam as chuvas, o que deveria ser um fluxo natural transforma-se em transbordo descontrolado.

Não é um fenómeno complexo. É, como diria qualquer estudante atento de geografia, uma questão básica.

E, no entanto, as consequências são tudo menos básicas.

Em várias regiões de Angola, incluindo Luanda e Benguela, episódios recentes de cheias têm causado destruição de habitações, infraestruturas e meios de subsistência. Em Viana, por exemplo, as inundações têm repetidamente exposto fragilidades no ordenamento urbano e na drenagem.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a gestão integrada dos recursos hídricos é um dos pilares fundamentais para a resiliência climática em África. Isso implica manutenção contínua, planeamento territorial e políticas públicas consistentes — não respostas reativas após cada crise.

A questão que se impõe é direta: estamos perante fenómenos naturais ou perante falhas humanas persistentes?

 

Conclusão

O caso da barragem da Umpata, seja qual for a sua dimensão final, simboliza algo maior do que um incidente isolado. Representa um padrão.

Um padrão de negligência, de memória curta e de desvalorização do conhecimento básico.

Recordar não é apenas um exercício nostálgico. É um ato de responsabilidade. Porque há saberes que, quando esquecidos, cobram um preço elevado.

Como afirmou Amartya Sen: “Uma sociedade progride quando transforma conhecimento em ação.”

Em Angola, essa transformação continua a ser um desafio urgente.


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