Há acontecimentos que insistimos em chamar de “acasos”, mas que, quando observados com atenção, revelam padrões demasiado claros para serem coincidência.
A recente escalada dos preços do gás natural na Europa é um desses casos. Em apenas um mês, o mercado retalhista registou aumentos superiores a 40%, num contexto que alguns analistas classificam como uma verdadeira “tempestade perfeita”. A questão central é simples e incómoda: perfeita para quem?
Os preços do gás para entrega no dia seguinte no Reino Unido atingiram, na última semana, o valor mais elevado dos últimos seis meses, com subidas diárias superiores a 14%, acompanhando a tendência generalizada nos mercados europeus, segundo dados da LSEG. Os contratos futuros para os próximos meses seguiram o mesmo caminho, pressionando desde já as expectativas de custos energéticos para famílias e empresas.
Em fevereiro, o preço de entrega no Reino Unido ultrapassou os 98 pence por termia, após um aumento superior a 8 pence num único dia. Em paralelo, os níveis de armazenamento de gás na Europa encontram-se em cerca de 52% da capacidade, de acordo com a Gas Infrastructure Europe — um valor particularmente baixo para esta altura do inverno.
Os fatores técnicos são conhecidos e amplamente divulgados: temperaturas mais frias, reservas reduzidas e uma desaceleração nas entregas de gás natural liquefeito (GNL), sobretudo provenientes dos Estados Unidos, agora um dos principais fornecedores da Europa. Mas limitar a análise a estes elementos é, no mínimo, ingénuo.
No mesmo dia em que a União Europeia anunciou com orgulho a proibição total do gás russo, o preço do gás americano — alternativa apresentada como pilar da “autonomia estratégica” — disparou cerca de 40%. A coincidência foi sublinhada publicamente por Rob Roos, que alertou para o risco de a Europa estar a acelerar o seu próprio declínio energético e económico, guiada por uma liderança rigidamente ideológica e perigosamente míope.
Do outro lado, Roberta Metsola celebrou a assinatura da proibição do gás russo como um passo decisivo para garantir controlo sobre o abastecimento energético e reforçar a autonomia europeia. A narrativa política é clara, otimista e moralmente confortável. A realidade no bolso dos cidadãos é outra.
A pergunta impõe-se: que tipo de autonomia é esta, quando se troca uma dependência por outra, potencialmente mais cara e menos previsível? E quem paga o preço desta transição feita à pressa, sem uma estratégia robusta de médio e longo prazo?
Quando decisões estruturais são tomadas mais por alinhamento ideológico do que por pragmatismo económico e social, o resultado tende a ser conhecido. As contas de energia sobem, a competitividade industrial cai, e a pressão recai sobre os mesmos de sempre: famílias, pequenas empresas e setores mais vulneráveis. Chamar a isto “inevitável” ou “conjuntural” é uma forma elegante de normalizar uma nova forma de dependência — alguns diriam, sem rodeios, uma nova escravocracia energética.
A Europa enfrenta hoje um dilema que vai muito além do gás. Trata-se de escolher entre slogans políticos e políticas públicas baseadas em realismo, planeamento e responsabilidade. Porque, no fim, não é o mercado que liga o aquecimento em casa. São os cidadãos que recebem a fatura.