A Frigideira, o Tarrafal e o Combate ao Fascismo e ao Colonialismo

E porque uma equipa de arqueólogos veio confirmar aquilo que há muito era conhecido pela memória dos sobreviventes e pela história, a existência da temida “Frigideira” no Campo de Concentração do Tarrafal, deixamos aqui a memória do sofrimento vivido por tantos antifascistas e anticolonialistas.

O Tarrafal foi concebido como um campo de morte lenta, e muitas vezes de morte certa. Foi precisamente para esse fim repressivo que surgiu o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, responsável pela morte de 36 pessoas entre 1936 e 1956.

As vítimas, maioritariamente opositores ao regime do Estado Novo e nacionalistas africanos, sucumbiram à tortura, aos trabalhos forçados, à subnutrição e à ausência deliberada de assistência médica.

Entre os mortos recordamos 32 portugueses, opositores ao regime fascista, entre os quais sindicalistas, marinheiros revoltosos e militantes antifascistas que ousaram resistir à ditadura.

  • 2 guineenses: Combatentes dos movimentos de libertação.
  • 1 angolano: Combatente dos movimentos de libertação.
  • 1 cabo-verdiano: (Nota: Embora os números globais variem historicamente entre 34 e 36 vítimas, o total oficial inclui nacionalidades dos movimentos independentistas africanos).

De entre os assasimos um medico o do campo de concentração , Esmeraldo Pais, que chegou a afirmar que não estava lá para curar, mas sim para "assinar certidões de óbito".

Os primeiros prisioneiros a dar entrada no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, foram 157 antifascistas e opositores portugueses ao regime de Salazar, que chegaram a 29 de outubro de 1936.

De entre estes realcemos  Bento Gonçalves, do PCP, Mario Castelhano, anarquista, Edmundo Pedro, comunista depois socialista entre os portugueses da primeira fase e na segunda fase Luandino Vieira, Justino e Vicente Pinto de Andrade

Um relato de Justino Pinto de Andrade esclarece duvidas sobre o combate de UNITA “A primeira vaga de presos angolanos chega ao Tarrafal no dia 25 de Fevereiro de 1962, e é constituída por 18 pessoas; no dia seguinte, 26-02-1962, chegam mais 15 presos. A segunda vaga é de apenas de 3 presos, entrando em 1964. Os presos da primeira e segunda vagas constituíram, com mais outros, o chamado “Processo dos 50” que marcou de forma muito simbólica a nossa Luta pela Libertação. Muitos deles estavam presos desde 1959.

Depois destas vagas, o Campo ficou cinco anos sem receber novos presos, até que a terceira vaga chega a 08-08-1969, com 34 presos, muitos dos quais há anos nas cadeias de Luanda. Uns ligados ao MPLA, outros à UNITA, outros à UPA/FNLA. Os presos da UNITA são fundamentalmente Kiokos, porque a UNITA havia iniciado a sua luta em finais de 1966, na Província do Moxico. É a vaga mais heterogénea, do ponto de vista da filiação partidária.

A quarta vaga data de 14-03-1970 e é constituída por 23 presos, todos estão ligados à UNITA.

A quinta e última vaga, a minha, chega ao Tarrafal a 14-05-1970, com 14 presos.

Dos presos angolanos no Tarrafal, 11 pertenciam a um grupo político denominado Espalha Brazas, na verdade do ELA – Exército de Libertação de Angola).

Outros 8 pertenciam ao ELA.

Mais 6 eram do MIA (Movimento Para a Independência de Angola). 3 eram do PLUAA (Partido da Luta Unida dos Africanos de Angola)

6 eram do PCA (Partido Comunista Angolano).

25 eram do MPLA, entre os quais todos os presos do CRL (Comité Regional de Luanda).

Cerca de 40 presos eram da UNITA e os restantes da UPA/FNLA.”

(Texto adaptado da intervenção de Justino Pinto de Andrade no Colóquio Internacional Tarrafal – uma prisão, dois continentes, Lisboa, 29 de Outubro de 2008)”

De outras fontes podemos ler que cerca de 40 militantes e fundadores da UNITA foram presos pela PIDE e enviados para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde entre Eduardo Jonatão Chingunji, figura de grande relevo e prestígio.

A presença de nacionalistas da UNITA no Tarrafal enquadra-se nos seguintes momentos:

A PIDE capturou e deportou vários quadros da UNITA em vagas sucessivas (destacando-se um grupo de 23 presos em março de 1970 e um contingente posterior em maio).

Além de Eduardo Jonatão Chingunji, a cadeia acolheu missionários, pastores, catequistas e responsáveis destacados da UNITA.

Dos castigos isto é da repressao sobre estes presos politicos a que mais ficou famosa foi a frigideira euma pequena construção de cimento, com sete metros de comprimento e três e meio de largura, sem janelas, com duas celas, onde se aglomeravam vários presos. Estava completamente exposta ao sol, atingido no seu interior temperaturas de 50º centigrados

Terminada a II Guerra Mundial, o ambiente internacional favorável às democracias induziu mudanças no sistema prisional de justiça.

O Tarrafal (tal como o Forte de Peniche) passou para a tutela do Ministério da Justiça.

Foram amnistiados 110 presos, que deixaram a ilha a 25 de janeiro de 1946 mas permaneceram no Tarrafal cerca de 52 presos políticos aos quais se juntaram, em 1949, dois dirigentes comunistas.

Até a essa data tinham morrido, por doença e inadequação das condições existentes, 32 prisioneiros.

O Tarrafal acabou por encerrar portas na sua primeira fase a 1 de janeiro de 1954.

Do Avante citamos “maioria dos presos não vergou, apesar dos pesados castigos. O comunista Gabriel Pedro passou, ao todo, 135 dias na famigerada cela. O relato que se segue descreve a «Frigideira»:

Dos­sier Nos 70 anos do Campo de Con­cen­tração do Tar­rafal

«A “Fri­gi­deira” era uma caixa de ci­mento (…) Es­tava ex­posta ao sol de manhã à noite. Lá dentro era um forno. Aquela prisão me­recia o nome que lhe tí­nhamos dado. O sol batia na porta de ferro e o calor ia-se tor­nando sempre mais di­fícil de su­portar. Íamos ti­rando a roupa, mas o suor corria in­ces­san­te­mente.

«A “Fri­gi­deira” teria ca­pa­ci­dade para dois ou três presos por cela. Che­gámos a ser doze numa área de nove me­tros qua­drados. A luz e o ar en­travam com muita di­fi­cul­dade pelos bu­racos na porta e em cima pela aber­tura junto ao tecto (…) A água que nos davam para beber nunca che­gava. Tra­ziam-na de manhã numa pe­quena bilha de lata e talvez não che­gasse a uns quatro li­tros. Se éramos mais de dois não bas­tava para com­pensar os lí­quidos per­didos com o calor e so­fríamos cons­tan­te­mente a sede.

«Pouco de­pois de o Sol nascer, já o ar se tor­nava aba­fado, ir­res­pi­rável. Des­píamos a roupa e es­ten­díamo-la no ci­mento para nela nos dei­tarmos. O Sol ia er­guendo-se sobre o ho­ri­zonte e o calor au­men­tava, au­men­tava e suá­vamos, suá­vamos. Sen­tíamos sede, ba­tíamos na porta a pedir água, mas não tí­nhamos res­posta. A água da bilha não tar­dava em ficar quente. Havia mo­mentos em que a sede era tanta que pas­sá­vamos a língua pela pa­rede por onde es­cor­riam as gotas da nossa res­pi­ração que ali se con­den­sava (…) A fri­gi­deira ma­tava.

«Ainda nos re­cor­damos de ver Pedro So­ares ca­mi­nhando para o Campo, des­calço, tronco nu, sem óculos, cam­ba­le­ando com o es­forço para do­minar o ex­tremo can­saço. Vinha muito magro, muito sujo. Também nos lem­bramos de Luís Ta­borda, com o corpo todo numa chaga, de Ga­briel Pedro, que nos pri­meiros cinco anos foi quem mais tempo passou na “Fri­gi­deira”, tão per­se­guido pelos car­ce­reiros para o fa­zerem fra­quejar e re­pu­diar os seus ideais através de cons­tantes cas­tigos que, sen­tindo-se sem forças para re­sistir mais, cortou as veias dos pulsos no re­bordo do latão.»”

O 25 de Abril só chegou ao Tarrafal a 1 de Maio de 1974, quando uma multidão foi ao campo exigir a libertação de todos os presos políticos.  La fora, estava Gil Querido Varela, e lá dentro, António Pedro da Rosa. Os portões abriram-se e os presos foram recebidos em delírio e muitos seguiram em cortejo e festa até à cidade da Praia, a uns 70 quilómetros do Tarrafal, na ponta sul da ilha. “Foi um dia muito feliz”, recorda Gil Varela, enquanto António Pedro da Rosa recorda “a grande emoção” que sentiu.

Porém, em Dezembro de 1974, as portas voltaram a fechar-se. No interior ficavam 70 cidadãos cabo-verdianos, adversários do PAIGC e afectos na sua maioria à UDC e à UPICV, formações que não teriam lugar no regime de partido único. Na altura, ainda eram as autoridades portuguesas quem mandava, justificam personalidades do PAIGC. Libertados a pouco e pouco, os últimos presos foram abrangidos por uma amnistia decretada aquando da independência. O campo viria a ser extinto "para sempre" em 19 de Julho de 1975, por uma das primeiras leis de Cabo Verde. ( https://www.rfi.fr/pt/programas/cabo-verde-50-anos-de-independ%C3%AAncia/20250626-sobreviver-%C3%A0-pris%C3%A3o-do-tarrafal )

E garantimo-vos que mesmo em Caxias ou Peniche se o sofrido nao foi tao brutal nao deixou de marcar para a vida quem por lá passou!

E no entanto apesar de estarem entre os vencedores do 25 de abril são sistematicamente esquecidos…