Há mais de um século que uma espécie de máquina fotográfica aponta para o Sol no Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra. .

O espectro-heliógrafo tem permitido estudar a atividade solar e continua a prestar informação relevante à comunidade científica.

No dia 12 de agosto, o histórico instrumento estará no centro das atividades preparadas pelo Observatório para assinalar o eclipse do Sol, um fenómeno raro que Portugal não observa na sua totalidade desde 1912.

A história do espectro-heliógrafo remonta a 1890, quando o aparelho foi inventado por George Ellery Hale e Henri Deslandres. A 12 de abril de 1925, durante a fase de testes do instrumento em Coimbra, foi obtido o primeiro espectro-heliograma. No ano seguinte começaram as observações diárias e contínuas do Sol.

O aparelho funciona como uma máquina fotográfica do astro-rei, “desenhada para registar o disco solar total”.

Em declarações à TSF, Ricardo Gafeira explica que o instrumento trabalha “de forma diária e regular”, produzindo imagens do Sol em tonalidades “avermelhada e violeta”.

O diretor do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra recorda que o objetivo inicial era “estudar a atmosfera solar” do ponto de vista da “ciência e da astrofísica”.

Atualmente, o espectro-heliógrafo também apoia a comunidade científica “no estudo da meteorologia espacial”, contribuindo para a análise e previsão de tempestades solares cujos efeitos podem chegar à Terra, incluindo “auroras boreais ou perturbações no sinal de GPS”.

Trata-se de uma peça rara, considerada única em Portugal e no mundo. Ricardo Gafeira reconhece que “não é muito normal ter um instrumento em operação durante tanto tempo”, o que obriga a comunidade científica a “adaptar aos novos tempos”.

A preservação do espectro-heliógrafo demonstra igualmente a vontade de “evolução” e de “aumentar as suas capacidades”.

“É feito em madeira e requer constante preservação e controlo ambiental para que dure, esperamos nós, mais cem anos”, destaca.

Apesar da idade, o aparelho continua a produzir “dados de ponta”. Cada fotografia é composta por “mais de seis mil imagens” que, depois de combinadas, dão origem à imagem final do disco solar.

É nessa imagem que os investigadores conseguem observar “manchas solares - zonas mais escuras na superfície do sol” e outro tipo de estruturas, como “filamentos solares”.

No dia do eclipse, o Observatório de Coimbra terá várias atividades destinadas ao público, incluindo uma visita ao “instrumento e à exposição que foi desenvolvida em especial para o seu centenário”.

O espectro-heliógrafo, porém, não será utilizado para acompanhar o eclipse em tempo real, uma vez que “demora cerca de 15 minutos até obter uma imagem”. Ricardo Gafeira explica que, se o aparelho fosse usado durante o fenómeno, as pessoas “perderiam os momentos de observação”.

O eclipse será total apenas numa área restrita do Parque Natural de Montesinho, no distrito de Bragança. No restante território continental, a ocultação do Sol deverá situar-se entre 92% e 99%. Nos Açores e na Madeira, ficará entre 74% e 77%, segundo a informação oficial da iniciativa nacional Eclipse do Sol 2026.

O fenómeno acontece quando a Terra, a Lua e o Sol ficam alinhados e a Lua oculta completamente o disco solar durante alguns instantes.

O último eclipse total do Sol observado em Portugal aconteceu em 1912. Depois do fenómeno de 12 de agosto, o próximo apenas deverá ser visível em 2144. Para as atuais gerações, será um momento difícil de repetir.