Perante o desplante do texto em causa, dispenso-me, por pudor intelectual, de o citar mais extensamente.

Trata-se de um texto ridículo, historicamente anticientífico e ideologicamente marcado por um direitismo tantas vezes mais iletrado do que aquele que as próprias direitas gostam de atribuir aos pobres.

Com uma diferença essencial: os pobres são frequentemente empurrados para a exclusão do conhecimento por imposição de um sistema dominante que lhes limita oportunidades, tempo, recursos e acesso. Já certas direitas escolhem demasiadas vezes a ignorância por desprezo pela complexidade, pela investigação séria e pela procura honesta da verdade.

Vejamos, então, alguns exemplos da História que desmontam a tese desse pretenso historiador, mais próximo de um fabricante de falsidades do que de alguém comprometido com o rigor histórico.

Naturalmente, não seguimos aqui a visão oficial, simplificada e escolar das revoluções, como se elas fossem acontecimentos lineares, fechados em datas, nomes e fórmulas de manual. As revoluções são processos profundamente complexos, atravessados por conflitos sociais, económicos, políticos, culturais e simbólicos. Não nascem do nada. Não resultam apenas da vontade de meia dúzia de dirigentes. E muito menos podem ser reduzidas à caricatura ideológica de quem olha para a História com os óculos estreitos do preconceito.

Apresentemos, então, dois casos maiores: a Revolução Francesa e a Revolução Russa, pela importância decisiva que tiveram muito para além das suas fronteiras e pela influência que exerceram no mundo contemporâneo.

Em 1917, a Rússia vivia uma crise social gravíssima, agravada pela participação na Primeira Guerra Mundial, pela escassez de alimentos, pela desigualdade extrema, pela repressão política e pelo desgaste de um regime czarista incapaz de responder às necessidades mais elementares da população.

Essa instabilidade culminou em dois grandes momentos revolucionários: a Revolução de Fevereiro, que conduziu à queda do czarismo, e a Revolução de Outubro, que levou à tomada do poder pelos bolcheviques.

A profunda instabilidade social russa de 1917 assentava, sobretudo, em três pilares principais:

  • Colapso Económico e Fome: A forte industrialização acelerada concentrou as massas urbanas em péssimas condições de vida, enquanto a maioria da população sobrevivia na miséria no campo. Com a guerra, a produção agrícola e fabril ruiu, gerando hiperinflação e grave escassez de alimentos e combustíveis.
  • Desastre na Primeira Guerra Mundial: O envio de milhões de camponeses despreparados para a frente de batalha resultou em milhões de baixas e derrotas humilhantes, tornando o conflito extremamente impopular. As deserções em massa no exército alimentaram o sentimento de revolta.
  • A Queda do Czarismo (Fevereiro): A greve geral e os protestos em Petrogrado (atual São Petersburgo) forçaram a abdicação do Czar Nicolau II, substituído por um Governo Provisório incapaz de resolver as reivindicações de "Paz, Pão e Terra".
  • A Ascensão Bolchevique (Outubro): A contínua desordem política permitiu que os bolcheviques, liderados por Vladimir Lênin, organizassem sovietes (conselhos de operários e camponeses) e assaltassem o Palácio de Inverno, instalando um regime socialista.

Ha um caso particular a merecer nota antes das anteriores que a seguir veremos,

 

Estaline

 

Nascido em uma família georgiana pobre em Gori, indo por isso estudar para um seminario onde aprendeu tambem e clandestinamente o marxismo;   iniciou sua carreira revolucionária depois de se  juntar ao partido operario social democrata russo POSDR.

Editou o jornal local do partido o pravda e levantou fundos para a facção bolchevique de Lenine por meio de roubos, sequestros e redes de proteção. Repetidamente preso, sofreu vários exílios na Sibéria.

Depois dos bolcheviques tomarem o poder na Rússia durante a revolução de outubro juntou-se ao comitê politburo serviu na guerra civil antes de supervisionar a criaçao da URSS

Com a morte de Lenin assume o poder num processo mal descrito.

Nota final deste 1917

Antes da revolução a Russia tinha a maior populacao da Europa 117 milhoes em 1904.

Defrontava-se também com o maior problema social do continente: a extrema pobreza e ss ideologias liberais e socialistas cresciam e alimentavam a revolta anti feudal

Entre 1860 e 1914, o número anual de estudantes universitários cresceu de 5 mil para 69 mil, e o número de jornais diarios cresceu de 13 para 856.

Revoluçao Francesa

Os historiadores sérios relataram  muitos eventos e fatores no Antigo Regime  que levaram à Revolução tais como o  aumento da desigualdade social e economica as novas ideias políticas emergentes do iluminismo a má gestão economica do absolutismo, os fatores ambientais que levaram ao fracasso agrícola, a dívida nacional incontrolável a má gestão política por parte do rei Luis XVI

Historiadores referem a importância da "esfera pública" que incluía as lojas maçonicas, os jornais, os   cafes e clubes de leitura onde as pessoas, pessoalmente, através da palavra impressa, lida por alguem aos analfabetos, debatiam e discutiam questões

A economia do Antigo Regime durante os anos anteriores à Revolução sofria de instabilidade; com fracss  colheitas que duraram vários anos e um sistema de transporte inadequado o que contribuíu para tornar os alimentos mais caros

A sequência de eventos que levaram à Revolução incluiu os problemas fiscais do governo nacional causados por um sistema tributário ineficiente e os custos de várias grandes guerras

A França sofreu uma depressão economica tão grave que não havia comida suficiente para a população.

E tal como acontece com a maioria das monarquias  a classe alta estava sempre segura de uma vida luxuosa  para si, e enquanto os ricos permaneciam muito ricos, a maioria da população francesa estava a morrer de fome.

O desespero era tanto por não poderem alimentar suas famílias que recorreram ao roubo ou à prostituição para se manterem vivos.

Enquanto isso, a corte real em Versalhes isolada no seu luxuoso casulo e indiferente à crise crescente na nação e embora, em teoria, o rei Luís XVI fosse um monarca absoluto ele era conhecido por recuar quando confrontado com forte oposição.

Embora ele tenha reduzido as despesas do governo, os opositores nos parlamentos frustraram suas tentativas de implementar reformas muito necessárias.

O Iluminismo entretanto gerava muitos escritores, mais panfletos e editores que poderiam informar ou inflamar a opinião pública.

A oposição usou esse recurso para mobilizar a opinião pública contra a monarquia, que por sua vez tentou reprimir a literatura subterrânea

A imensa maioria dos principais participantes da Revolução eram maçons e os  temas Liberdade Igualdade e Fraternidade foram  slogans amplamente reconhecido da Revolução.

Vejamos entretanto um exemplo de uma revolucionária maltratada pela Revolução- Marie Gouze! Nasceu em uma família muito baixa pequena e burguesa em 1748 em Montauban. O seu pai era açougueiro, a sua mãe, lavadeira. Ela acreditava ser filha legítima de Jean Jacques Lefranc um importante iluminista e a rejeição no reconhecimento dessa paternidade influenciou a sua defesa apaixonada dos direitos das crianças ilegítimas.

Casou-se jovem em 1765 com Louis Aubry de quem teve um filho, Pierre. Ficou viúva logo depois e, em 1770, transferiu-se para Paris onde adotou o pseudônimo de Olympe des Gouges (nome em que é conhecida hoje)

Em 1774, escreveu uma peça de teatro antiescravagista ''L'Esclavage des Nègres'” e pelo fato de ser sido escrito por uma mulher e com o assunto controverso a  obra so foi publicada em 1789, no início da revolução francesa

Olympe demonstrou sua combatividade na luta incessante, porém, sem sucesso, pela encenação da peça.

Ao mesmo tempo, escreveu obras feministas relacionadas aos temas dos direitos ao divórcio e às relações sexuais fora do casamento

Como apaixonada advogada dos direitos humanos, Olympe de Gouges abraçou sem  e com paixao  a deflagração da Revolução.

Mas logo se desencantou com a constatação de que a égalité (direitos iguais)da Revolução não incluía as mulheres no que se refere à igualdade de direitos.

Em 1791 ela ingressou no ''Cercle Social'' — uma associação cujo objetivo principal era a luta pela igualdade dos direitos políticos e legais para as mulheres. Reuniam-se na casa da conhecida defensora dos direitos das mulheres Sophie de Condorcet e foi  aí que Olympe expressou pela primeira vez sua famosa e assertiva frase: "a mulher tem o direito de subir ao cadafalso; ela deve igualmente ter o direito de subir à Tribuna"

e escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (em francês: Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne),  um texto jurídico produzido em 1791, exigindo status de completa assimilação jurídica, política e social das mulheres.

O povo pobre na Revolução Francesa — formado por camponeses e pelos trabalhadores urbanos conhecidos como sans-culottes — foi a principal força motriz do movimento, impulsionado pela extrema miséria e pela fome. Embora tenham lutado por pão e igualdade, viram o poder político e os benefícios economicos serem apropriados pela burguesia.

Antes de 1789, a sociedade francesa estava dividida em Ordens ou Estados.

O Primeiro Estado (clero) e o Segundo Estado (nobreza) detinham privilégios e não pagavam impostos.

O Terceiro Estado, que englobava mais de 95% da população (incluindo camponeses, artesãos e a burguesia), arcava com toda a carga tributária.

Os pobres foram fundamentais para as grandes revoltas  da época.

  • Queda da Bastilha: Em 14 de julho de 1789, a insatisfação popular culminou na tomada desta fortaleza e prisão, um grande símbolo do poder absolutista.
  • Os sans-culottes (chamados assim por não usarem os calções justos típicos dos nobres) exigiam o congelamento do preço dos alimentos e uma distribuição de renda mais justa.
  • Nos campos, os camponeses protagonizaram revoltas violentas contra os senhores feudais, queimando castelos e exigindo o fim das obrigações servis.

A Russia outra vez

Cerca de 80% da população vivia no campo, submetida a um regime semifeudal onde dependiam dos senhores de terras e da Igreja.

Nas cidades, os operários enfrentavam jornadas exaustivas e condições insalubres.

O analfabetismo rondava os 90% e a fome endémica era mascarada pelo governo czarista.

As crises de fome e a falta de saneamento básico dizimavam vilarejos inteiros devido a epidemias.

O Lema "Pão, Paz e Terra": Este foi o clamor popular que uniu os camponeses e operários.

Eles queriam a saída da Rússia da Primeira Guerra Mundial, o fim da escassez de alimentos e a distribuição das grandes propriedades rurais para quem nelas trabalhava.

A transição foi marcada por extrema violência, colapso económico e por uma Guerra Civil.

Muitas das promessas iniciais de fartura demoraram a chegar, e o descontentamento popular com o racionamento e o autoritarismo do novo regime foi registado em várias cartas enviadas diretamente aos líderes.

Para conter a miséria extrema que assolava a base da sociedade, Vladimir Lenine implementou em 1921 a Nova Política Económica (NEP). Esta medida permitiu um regresso temporário a práticas capitalistas de mercado, com o objetivo de reanimar a economia e combater a fome que castigava o povo.

Os camponeses foram atores políticos decisivos em 1917.

Eles definiram as respostas dos políticos para os desafios nacionais; eles produziram, controlaram e ditaram o suprimento de alimentos. Armados e fardados, os camponeses serviram como soldados, fazendo parte do poder político e rompendo com ele e, como a maioria dos residentes urbanos da Rússia, eles tiveram papéis centrais nas revoltas urbanas

Vejamos alguns dos seus herois

Nestor Makhno: O mais famoso líder camponês e anarquista. Organizou o Exército Insurrecional Revolucionário da Ucrânia (conhecido como Makhnovtchina), estabelecendo uma sociedade camponesa autogestionária que  lutou  tanto contra o "Exército Branco" como contra os bolcheviques.

Alexander Antonov: Antigo operário e membro do Partido Socialista Revolucionário. Liderou a famosa Revolta de Tambov (1920–1921), uma das maiores rebeliões armadas de camponeses contra as políticas de requisição de cereais impostas pelo governo de Lenine.

Mariya Spiridonova: Uma das líderes mais carismáticas do Partido dos Socialistas Revolucionários (SRs) de Esquerda.

Lutou pelos direitos agrários dos camponeses e fez parte da aliança inicial com os bolcheviques em 1917.

Vassili Chapaev: Oriundo de uma família de carpinteiros, tornou-se um lendário e carismático comandante militar bolchevique de origem camponesa.

Liderança Anarquista e Camponesa (Exército Negro)

Muitos camponeses pegaram em armas de forma independente, rejeitando tanto o autoritarismo do Exército Branco (aristocracia e czaristas) quanto o centralismo do Estado soviético.

  • Vassili Chapaev: Oriundo de uma família de carpinteiros, tornou-se um lendário e carismático comandante militar bolchevique de origem camponesa. [1]

Liderança Anarquista e Camponesa (Exército Negro)

Muitos camponeses pegaram em armas de forma independente, rejeitando tanto o autoritarismo do Exército Branco (aristocracia e czaristas) quanto o centralismo do Estado soviético.

Exército Verde: Composto por grupos de camponeses armados que lutavam contra os confisco forçados de grãos promovidos tanto pelos "vermelhos" quanto pelos "brancos"

Anarquista ucraniano e carismático líder da Makhnovtchina(Exército Insurreição). Liderou guerrilhas camponesas na Ucrânia que estabeleceram comunas autónomas autogestionárias antes de serem reprimidas pelo governo

Apesar da solidariedade, a sua visão divergia em pontos fundamentais sobre como o socialismo deveria ser construído: [1, 2]

  • Democracia Operária: Defendia que a verdadeira democracia socialista exige a mais ampla participação das massas. Critica a limitação da liberdade de imprensa, de associação e de expressão. [1]
  • Assembleia Constituinte: A oposição à dissolução da Assembleia Constituinte pelos bolcheviques é um dos pontos altos da sua crítica. Para Rosa, isso sufocaria a vida política nos conselhos de trabalhadores (sovietes). [1]
  • Ditadura do Partido: Alertou que, ao substituir a ditadura do proletariado pela ditadura de um único partido, o processo degeneraria e culminaria no burocratismo. [1, 2]
  • Questão Agrária e Nacional: Discordava da distribuição de terras aos camponeses (por criar uma nova classe de pequenos proprietários) e do direito à autodeterminação das nações, receando que isso fragmentasse o movimento operário internacional.

E Portugal?

Nomes de relevo no sindicalismo revolucionário incluem Alexandre Vieira, Manuel Joaquim de Sousa, Emílio Costa e Azedo Gneco (pioneiro do movimento socialista).

Estes líderes canalizaram a força dos sindicatos para a greve e contestação que fragilizaram o regime monárquico nos anos anteriores à revolução.

Leo Frankel: Revolucionário germano-húngaro e um dos principais dirigentes. Era próximo de Karl Marx, com um papel central na organização das associações sindicais e nas políticas laborais da Comuna. [1]

Louise Michel: Professora e escritora anarquista, considerada uma das figuras mais emblemáticas da Comuna. Liderou batalhas, organizou o apoio logístico, fundou o Comité de Vigilância das Mulheres e promoveu a igualdade de direitos.[1, 2, 3, 4, 5]

Jaroslav Dombrowski: Revolucionário polaco e internacionalista. Assumiu o cargo de general da Guarda Nacional e foi comandante supremo de todas as forças militares da Comuna. [1]

Eugène Varlin: Operário encadernador e figura central da Primeira Internacional. Teve um papel fulcral na gestão das fábricas abandonadas e na organização dos serviços de subsistência de Paris. [1, 2, 3]

Élisabeth Dmitriev: Jovem militante russa e feminista, próxima de Karl Marx. Foi fundadora da União de Mulheres para a Defesa de Paris e os Cuidados aos Feridos.

Ela trabalhou como encadernadora e comerciante em Paris e, posteriormente, tornou-se ativista socialista.

Em 1864, a AIT também conhecida como Primeira Internacional) foi criada em Londres, em meio ao clima social agitado na Europa. Em agosto de 1864, os encadernadores parisienses entraram em greve em meio a uma grande disputa trabalhista, durante a qual um dos militantes mais conhecidos foi Eugène Varlin Em 1865, Nathalie Lemel juntou-se à Primeira Internacional. Quando uma nova greve foi convocada, ela foi membro do comitê de greve e eleita delegada sindical, um cargo raro para uma mulher naquela época. Ela se destacou por sua determinação e organização: lutou notavelmente pela igualdade salarial entre homens e mulheres. De acordo com um relatório policial,

Ela chamou a atenção por sua intensa empolgação e seu ativismo político; nas oficinas, ela lia jornais ruins em voz alta; ela frequentava assiduamente os clubes [sindicais].

Isso se somava à sua forte oposição ao segundo imperio

 

 

 

A insurreição começou em 18 de março de 1871. Depois dessa data, Lemel tornou-se muito ativa nos clubes femininos, onde frequentemente fazia discursos. Esses discursos ajudaram a criar, União das Mulheres para a Defesa de Paris e o Cuidado dos Feridos

Em 26 de março, após as eleições, foi instaurado um conselho revolucionário, que incluía figuras como Jules Vallès , Charles Delescluzes , Raoul Rigault , Gustave Flourens e Eugène Varlin . A cidade de Paris seria governada pela Comuna até a Semana Sangrenta ( Semaine sanglante ), quando, em 21 de maio, as tropas de Versalhes entraram na cidade; essa semana terminou no dia 28, com a batalha final no cemitério Père Lachaise . Durante esse período, Nathalie Lemel estava do lado das barricadas perto da Place Blanche (na Rue Pigalle ). Além de lutar contra a polícia, ela também cuidava dos feridos.

Após a derrota da Comuna, o Conselho de Guerra condenou-a à deportação e ao exílio na colônia penal da Nova Caledônia . [ 8 ] Ela embarcou a bordo do Virginie , no mesmo comboio que Henri Rochefort e Louise Michel . Nathalie Lemel e Louise Michel opuseram-se veementemente à separação das mulheres no local de deportação. Mesmo assim, chegaram cinco dias depois dos homens, em 14 de dezembro de 1873, à península de Ducos , onde acabaram por partilhar a mesma cela; é possível que ela tenha exercido alguma influência sobre a sua companheira de cela. Teve de esperar pela amnistia de 1880, decretada pelo Presidente Félix Faure , antes de regressar a Paris. Mais tarde, foi contratada pelo jornal L'Intransigeant e continuou a sua luta pelos direitos das mulheres.