Por Tânia Miranda, Profª de História
Brant é acolhido na casa de um casal de amigos em São Paulo, membros da chamada rede de apoio. Ali conhece uma belga, recém-chegada da França. Uma paixão fulminante ─ dessas que só conhecemos através de romancistas com o dom de inventar o amor imortal ─ os une para sempre.
O destino, no entanto, é traiçoeiro! A belga Florence, sem nenhuma razão aparente, já que não é militante ativa no Brasil, desaparece misteriosamente, depois da prisão também inexplicável dos donos da casa. Naqueles tempos sombrios, já está instituída a figura do “desaparecido político”, e Florence é a golpeada do dia.
Usando documentação falsa ─ que não engana sequer um guarda de trânsito ─, sem recursos, mas possuído de uma paixão digna das tragédias gregas e de uma disposição gigante, encontrar a sua amada passa a ser um objetivo de vida para Brant. São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Paris, Bruxelas, Liege e outras cidades viram parte dessa obsessão.
Incorporando a paixão de Florence pelo compositor belga Jacques Brel, Brant a procura paralelamente a uma pesquisa sobre a obra do artista, visando a escrever sua biografia. É então que descobre que um encantamento amoroso não prospera sem um encantamento estético paralelo: em Florence ele enxerga Brel; em Brel ele enxerga Florence.
Assim nasce a ideia de escrever um romance. Mas o que é parte do romance que ele começa a escrever e o que é cenário da vida do personagem Abel em Paris é um enigma que o leitor deverá decifrar. Pois este romance não é apenas um painel dos anos de chumbo da ditadura brasileira, a bárbara repressão, as torturas, os assassinatos e os desaparecimentos. É, sobretudo, uma descida às profundezas das experiências de vida de militantes que se entregam a uma luta desvairada, num sonho visionário que jamais se realiza e que praticamente os dizima.
Com a cobertura de uma associação de apoio a exilados políticos brasileiros em Paris, onde usa o nome de Abel, o personagem desencava pistas e explicações do sumiço de sua amada. Desvendando uma teia de mistérios, como nos filmes de espionagem, encontra os circuitos que o podem levar a ela. Ou a seus restos finais.
História, suspense, mistério, crimes hediondos, transportam o leitor aos labirintos de uma genuína história de amor em tempos de ditadura.
Assim se expressa, na orelha do romance, a Editora 7 Letras, que acaba de publicá-lo.
“Há romances que tentam reconstruir a história: outros preferem perseguir os seus fantasmas. É nesse território instável ─ onde memória, paixão política, exílio e luto se confundem ─ que se move Crônicas de uma guerra inacabada, de Paulo Martins. Mais do que um romance sobre a ditadura brasileira, trata-se de uma longa travessia interior, conduzida por um narrador que transforma a busca amorosa numa investigação obsessiva sobre desaparecimento, culpa e sobrevivência.”
E no final, com esta síntese perfeita:
“Mas a força maior do romance talvez esteja justamente em sua recusa ao tom documental. Paulo Martins não escreve um inventário histórico nem uma narrativa de denúncia convencional. Seu livro é atravessado por cafés esfumaçados, canções francesas, bares gregos, hotéis baratos, ruas parisienses, vozes que retornam do passado e diálogos em que política e intimidade se confundem continuamente. A memória surge aqui como matéria viva, instável, frequentemente contraditória, capaz de transformar a própria experiência amorosa em espaço de resistência.
Entre relatos de perseguição, sonhos, encontros fortuitos e reflexões sobre literatura, o romance constrói uma atmosfera melancólica e febril, na qual o passado jamais se encerra por completo. Porque as guerras verdadeiramente traumáticas não terminam quando cessam os combates: continuam reverberando nos corpos, nas lembranças e nas sombras daqueles que sobreviveram.
Em Crônicas de uma guerra inacabada, Paulo Martins transforma essa persistência da memória, numa narrativa de rara intensidade emocional, em que amor e política permanecem unidos por uma ferida que o tempo não conseguiu fechar.”
Segundo declarações do autor, este é o terceiro volume de uma trilogia que o mesmo se propôs a escrever sobre os anos mais bárbaros da ditadura brasileira, tentando preencher uma lacuna que o mesmo identificou em nossa literatura em artigo publicado na Revista de Arte y Cultura da Universidad Científica del Sur, Lima, Peru, 2011: Desventuras de la ficción brasileña contemporánea. Segundo ele, as criações ficcionais focadas no período ditatorial no Brasil estão longe de alcançar o patamar da literatura argentina ou da chilena, assim como da peruana e outros países latino-americanos. Os dois primeiros volumes dessa Trilogia saíram em 2010 ─ Glória partida ao meio, 7 Letras ─ e 2014 ─ Adeus, Fernando Pessoa, 7 Letras. Fechando o ciclo com chave de ouro, o autor nos oferece agora esta obra inédita, que no fundo é uma síntese das outras, pela sua universalidade emocional e pela força extraordinária de sua narrativa.
Tânia Miranda, Profª de História