Para me sentir mais próximo de Lisboa e atualizado com os assuntos culturais portugueses, e também para escrever esta matéria para o Estrategizando, recorri à ajuda de um amigo, o poeta e pintor Diego Garcez, que mora em Portugal há mais de seis anos e lançou um lindo livro, “Satanás Lilás” (Editora Urutau), com poemas fortes e que ecoam suas pinturas, belas e viscerais.

Fiz muitas perguntas ao Diego: o que está acontecendo por agora na área cultural em Lisboa? Como ficou a questão do espaço cultural NowHere, expulso da Rua dos Poiais de São Bento pela gentrificação, tema que abordei aqui no Estrategizando há cerca de um mês? E os novos espaços culturais que inauguraram em Lisboa e que só vou poder ver no meu retorno a Portugal?

A resposta do artista é um relato completo, com direito a registros em desenhos e pinturas, e aqui vai um resumo para os leitores:

“A zona de Alcântara e Belém tem se consolidado como forte polo cultural com a presença de equipamentos importantes voltados para a arte contemporânea. Temos os já célebres CCB, MAAT e Cordoaria Nacional, mas este ano vimos surgir MACAM, Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, o Pavilhão Julião Sarmento e, ao lado, a reabertura da Galeria Avenida da Índia, agora com o nome de Coleção Arte Contemporânea Lisboa Cultura.

“Recentemente visitei estes últimos. Sugiro fazer tudo a pé nesta zona, pois sempre serás surpreendido com cafés interessantes, jardins e vistas reconfortantes para o rio. Fiz minha caminhada até o Pavilhão, fiquei bastante tentado por parar na Bertrand do CCB e também dar uma olhada nas obras do Centro Português de Serigrafia, mas queria ainda pegar a gratuidade na entrada para residentes de Lisboa até às 14h. Lógico que não consegui porque sempre estou atrasado, mas o ingresso custava apenas 5 euros e ainda tive desconto por ser artista, rara vantagem em ser artista, nisso já ganhei meu próprio sorriso.

“Fui sem pesquisar antes sobre o espaço, esperava conhecer mais a fundo as obras do Julião Sarmento, porém trata-se de um espaço reservado para a coleção do artista, não para suas obras. A exposição TAKE 1, curadoria de Isabel Carlos, está super bem montada e compôs maravilhosamente o espaço do belo edifício recém remodelado. Sugiro a vista panorâmica da exposição a partir do primeiro andar, perceberás o zelo que houve na ocupação do espaço, com diversidade grande de artistas consagrados, entre eles Marina Abramovic, Adriana Varejão, Rui Chafes, Joseph Beuys, Andy Warhol. Uma exposição no campo da arte conceitual e até experimental em alguns momentos. Gostei bastante, mas não sei se vai agradar ao público mais habituado com a pintura e o desenho, por exemplo.

“Logo ao lado do pavilhão, está a Coleção Arte Contemporânea Lisboa Cultura, com entrada gratuita. Vale muito a pena ver a exposição WHO-WHERE / QUEM-ONDE com curadoria da Sara Antónia Matos e Pedro Faro. É uma composição muito bem pensada de obras de artistas contemporâneos portugueses consolidados adquiridas pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) em 2024, artistas que já conhecemos e estamos habituados a ver em outros espaços voltados à arte contemporânea portuguesa, o que porém não diminui a beleza, valor e qualidade: Ana Jotta, Ana Vidigal, António Bolota, Vasco Araújo, Rui Chafes, Jorge Molder, Jorge Queiroz, Francisco Tropa entre outros.

“Fica a dica de uma programação interessante de domingo, se acompanhada de uma boa imperial logo em seguida, o que salva de uma só vez a alma e o verão.”

Muito grato ao Diego Garcez por seu relato que avivou em mim a saudade de Lisboa e a vontade de regressar logo para conhecer o Pavilhão Julião Sarmento e os outros espaços e compartilhar com ele e os amigos lisboetas esta imperial bem gelada!

Serviço:

Pavilhão Julião Sarmento: Av. da Índia, 172, 1400-038, Lisboa

TAKE 1, visita guiada pela curadora Isabel Carlos em 28/08 às 18h – entrada grátis

Coleção Arte Contemporânea Lisboa Cultura: Av. da Índia, 170, 1400-038, Lisboa

A imagem que ilustra esta matéria é uma pintura do poeta e pintor Diego Garcez a partir da obra “Doppelgänger”, 2011, de Didier Fiuza Faustino, na exposição TAKE 1 (Pavilhão Julião Sarmento)