Cada livro, à sua maneira, move o leitor de um ponto a outro; e, numa viagem de dez horas, às vezes o que importa menos é o destino e mais o gesto de estar com uma história entre as mãos enquanto o mundo lá fora se apressa em passar por estes “não-lugares”: aeroportos, aviões, carimbos em passaporte, jet lag e choques térmicos e culturais.
Na escolha de três livros recém lançados em Lisboa para serem minha companhia desta viagem, combinei narrativas curtas e envolventes que respeitam o ritmo fragmentado de uma cabine barulhenta e desconfortável. Nos fones de ouvido, um mix de The Smiths, Keith Jarrett e “Livro”, do Caetano Veloso, tudo a ver. São eles:
“Breve explicação sobre a origem da morte”, de Rafaela Lacerda, reúne contos em que a bióloga e escritora com formação em dramaturgia investiga limites com uma prosa densa e precisa, fazendo cada história funcionar como pequeno corte de uma realidade de difícil, talvez impossível, apreensão. Para Márcia Vieira Ávila, a autora “consegue arrepiar o leitor com temas tão reais quanto a doce crueldade com que são escritos”.
“Decomposição dos pássaros”, de Eltânia André, trabalha como quem nos narra “causos”, vividos ou ouvidos, personagens bem delineados e que têm vida, saltam para fora das páginas. São “contos que querem ser pássaros”, companhia perfeita para ser lida aos bocados entre um café e uma olhada pela janela para as montanhas enquanto nos preparamos para aterrissar. Para Luiz Ruffato, a autora evidencia nas dez histórias deste livro “o sentido trágico da vida envolvido por uma intensa carga poética”.
“Avestruz, pequeno estudo sobre a prontidão”, do escritor e artista plástico Diego Garcez, encerra a tríade com uma narrativa concentrada, quase um ensaio autoficcional sobre a construção de uma identidade, um pequeno Bildungsroman, um romance de formação, um acerto de contas do autor com o passado e uma escrita do futuro. Para a curadora Cristiana Tejo, é “um livro mestiço (...) algo de tratado, algo de diário e algo de poesia”.
São livros que mantém o leitor num estado de alerta poético – o mesmo estado de quem, a dez mil metros de altitude, se entrega a livros que o prendem e o desafiam, mas, em vez de pedir atenção ininterrupta, oferecem a liberdade de entrar e sair de suas páginas como quem atravessa diferentes modos de olhar o mundo, de cima, entre as nuvens.
Serviço:
“Breve explicação sobre a origem da morte”
Rafaela Lacerda
Editora Traça, Portugal
84 páginas
“Decomposição dos pássaros”
Eltânia André
Editora Urutau, Portugal/Brasil
92 páginas
“Avestruz, pequeno estudo sobre a prontidão”
Diego Garcez
Editora Urutau, Portugal/Brasil
96 páginas