Há uma distância que não se mede em quilómetros.

É a que separa Bofareira, uma localidade que a maioria dos mapas trata como nota de rodapé, do palco Chellah do Mawazine, em Rabat, um dos maiores festivais do planeta. Em 2026, Zulu percorreu essa distância: Rabat em junho, e em agosto a sua primeira digressão na Bélgica, no festival Zomer van Antwerpen, com cinco dias de concertos. Pelo meio, Lisboa e Rio de Janeiro.

Para uma artista que lançou o primeiro disco há pouco mais de um ano, é um itinerário que normalmente leva uma carreira inteira a construir. 

A pergunta interessante não é como chegou tão longe. É o que escolheu levar consigo.

A herança como ponto de partida, não como bagagem

Nasceu a 1 de abril de 1994, em Bofareira, na Boa Vista. Em casa, o pai juntava gente para tocar, e foi nesses encontros, antes de qualquer ambição de palco, que a música deixou de ser algo que se ouve para passar a ser algo que se faz. Há músicos que decidem ser artistas. Zulu pertence à categoria mais rara: a dos que nunca tiveram de decidir, porque a música já estava lá antes da escolha. 

O percurso, porém, exigiu-lhe quase tudo. Mudou-se para a Praia em 2015, concluiu com distinção Gestão de Hotelaria e Turismo, avançou para Engenharia Civil, e conciliou os estudos com a maternidade e o trabalho, longe da família. Cantar em restaurantes e bares da capital não era ainda um projeto artístico — era subsistência. Mas foi nesse circuito exigente, onde se canta para mesas distraídas e não para plateias rendidas, que a sua interpretação ganhou músculo. Quem aprende a prender a atenção de quem não veio para ouvir, aprende a essência do ofício. 

Foi também aí que mudou de nome. Deixou de assinar Zuleika Barros e passou a ser Zulu, síntese de intensidade, força e fusão. Um nome não muda uma pessoa. Mas, às vezes, anuncia uma decisão já tomada por dentro. 

Um primeiro disco que parece um retrato social

O que primeiro surpreende em Briza, o EP que lançou em março de 2025, não é a sonoridade. É a coragem temática.

As seis faixas, todas de sua autoria, falam de amor, prestam tributo às mulheres, abordam a educação e enfrentam a saúde mental. "Cada Kual" nasce diretamente da sua própria luta contra a depressão, vivida em 2021, e poucas estreias têm a frontalidade de transformar uma fragilidade íntima em canção pública. "Mana Guta" honra a mulher e a figura de Augusta Évora; "Papá Cuz" interroga a educação. Onde muitos artistas em início de carreira cantam apenas o que sentem, Zulu canta também o que observa. É uma diferença de maturidade, não de talento. 

A faixa mais audaz, porém, faz arqueologia. "Bubista D'otrora" resgata o landum, um ritmo profundamente enraizado na história da Boa Vista e quase desaparecido dos circuitos comerciais. Trazê-lo de volta não é um exercício de nostalgia: é devolver à ilha um pedaço da sua própria gramática sonora, e mostrar aos mais novos que aquilo que parecia esquecido ainda pode ser dançado. Quando uma artista de 31 anos decide dar futuro a um ritmo antigo, está a fazer uma escolha sobre o tipo de modernidade em que acredita. 

A geometria de uma colaboração atlântica

A consagração começou com um encontro. Numa atuação no restaurante Poeta, na Praia, o produtor José "Djô" da Silva decidiu que era o momento de a contratar, levando-a em 2024 para a Harmonia. Seguiu-se, em abril de 2025, a estreia em dois palcos decisivos: o Atlantic Music Expo e o Kriol Jazz Festival. 

Mas o gesto mais revelador da sua dimensão talvez não seja um palco — é uma mesa de gravação. Zulu integra o álbum Povo Brasileiro, do coletivo Rua das Pretas dirigido por Pierre Aderne, gravado em junho de 2025 na Casa Darcy Ribeiro, em Maricá, e apresentado em Paris a 12 de maio de 2026. O projeto cruza samba, fado, morna, capoeira e pontos de candomblé sem hierarquia entre as tradições, reunindo músicos do Brasil, de Cabo Verde e de Portugal. A própria Zulu define-se nesse trabalho como uma das pontes de reconexão entre os povos do Atlântico. É a frase que melhor explica tudo o resto: ela não procura caber no mundo: oferece-se como ligação entre partes dele. 

O reconhecimento, na medida certa

Os pares perceberam. Logo na sua estreia nas nomeações, Zulu reuniu quatro indicações nos Cabo Verde Music Awards 2026 - Coladeira, Funaná e Música Tradicional do Ano, além de Artista Revelação. Ser nomeada em três géneros enraizados na tradição, à primeira tentativa, diz mais sobre o futuro do que qualquer estatueta diria sobre o presente. Antes disso, já representara Cabo Verde no TOM - Capital da Música da Língua Portuguesa, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. 

Há um padrão em tudo isto. Sempre que Zulu se aproxima de um palco maior, aprofunda, em vez de diluir, aquilo que a torna cabo-verdiana. É uma aposta contraintuitiva num mercado global que premeia a semelhança. E, no caso dela, está a resultar.

O que fica

A história de Cabo Verde é, em parte, a história de transformar limitação em linguagem: poucos recursos, muitas canções; um território disperso, uma identidade densa. Zulu inscreve-se nessa linhagem — a de Cesária Évora, de Mayra Andrade, de Lura, de Tcheka, nomes que ela própria reconhece como bússola — mas acrescenta-lhe algo do seu tempo: a noção de que pertencer a um lugar pequeno pode ser, hoje, a forma mais sofisticada de pertencer ao mundo.

Bofareira nunca exportou muito. Agora exporta uma voz. E, com ela, a prova de que as raízes, quando se aprofundam, não prendem,  projetam.

Foto de destaque: https://www.facebook.com/zuleica.barrosascencao/