João Lourenço foi prestar contas a Estrasburgo

Estrategizando CPLP está a acompanhar as várias reações da juventude à volta do discurso do Presidente da República em vários depoimentos. 

O politÓlogo  Domingos Epalanga fez-nos saber que na sua opinião houve erros no posicionamento de João Lourenço enquanto estadista a merecerem análise, tendo feito uma avaliação generalizada ao discurso do Presidente da República no Parlamento Europeu, que considerou aliás ser uma conversa para fazer o "boi dormir" como se diz na gíria angolana.

Entrevista que envolveu a análise da questão socio-economicoa questão das políticas públicas, a emigração Áfricana para Europa, a negação e mortes dos filhos africanos no Mediterrâneo.

J-E; Dr Epalanga, quanálise faz sobre o discurso do Presidente da República no Parlamento Europeu? 

Domingos Epalanga; De um modo geral são sempre discursos muito bonitos, são discursos que já ouvimos, em outros momentos o que significa que o problema não está nos discursos, o discurso poderia ser melhor, o discurso poderia ser menos bonito ou mais bonito do que foi apresentado.

Mas África não precisa no fundo de discursos bonitos porque de discursos bonitos o nosso continente ja teve tantos, se formos a ver na era das independências africanascomeçando pelos discursos que norteiaram proclamações das independências africanas até aqui,vamos ver queos líderes africanos tenham de facto discursos bonitos porém utópicos, chamo utópicos porque grande parte das  vezes não refletem a realidade dos países africanos que dirigem mas também, utópicos porque a implementação prática destes discursos que diria platônicos não funcionam.

Ouvimos o ex-presidente da República de Angola José Eduardo dos Santos numa reunião do comitê central em 2017 onde disse que"nós temos boas ideias, mas quando vamos pôr em prática, as coisas não funcionam"! 

Este é o cancro das visões das lideranças africanas, fundamentalmente daquelas que conduziram o processo de libertação do pais, sendo que o défice no meu entender é geracional, havendo um défice na concepção de uma África para os africanos que está acoplada  a esta geração que trouxe a independência dos países africanos

Poderemos resolver este problema com uma transição geracional, mas a geração que for substituir essa, terá de necessariamente ter modelos e exemplos, terá de absorver princípios e valores de boas práticas governativasé pena que a geração que irá alternar seguramente a esta, esteja desprovida de valores, de modelos a seguir porque a atual geração dos líderes africanos não são modelos, não inspiram vontade de serem imitados

J-E; pareceu-nos que na União Europeia circulam rumores de que com nova Administração tudo vai melhorando a bom ritmo. Mas qual é o epicentro deste discurso?

Domingos Epalanga; 

Olhando para o discurso do Presidente da República, João Lourenço primeiro pareceu ser para prestar contas a um conjunto de cidadãos ou a um órgão político a quem não tem obrigação de o fazer, pois ele tem obrigação de prestar contas ao povo que governa, portanto este foi primeiro erro.

política move-se por interesses, e é preciso compreendermos a UNIÃO EUROPEIA como um projeto de sociedade Europeu primeiro, e sendoprojeto de sociedade Europeu move-se por interesses e valores, os valores que norteiam a comunidade europeia que são Democracia, os valores dos direitos humanos, os valores da legalidade etc. mas os interesses que norteiam a comunidade Europeia são interesses meramente econômicos e financeiros, pelo que na prática João Lourenço teria de dizer aos Europeus ou o que os Europeus queriam ouvir do João Lourenço em tese ou sínteseé; aonde estarão os interesses dos Estados Europeus em Angola, se estarão de facto acautelados, e  será que João Lourenço vai de facto doravante quebrar o paradigma da violação dos direitos humanos, do aprofundamento e reforço da democracia, da solidez das instituições de Estado? 

Portanto são questões que em tese e a bom  rigor os Europeus vão querer ouvir ou querem ouvirou vão querer ver a serem praticadas e o resto é supérfluo.

O Discurso de João Lourenço foi extremamente superficial, João Lourenço teria de dizer écomo serão acautelados os interesses Europeusdefinindo campo de exploração dos países Europeus, e  assim que fará vir no nosso país empresas Europeias

Eles são muito experientes nisso, os Europeus conhecem melhor a África do que nós os africanos,repare que na Europa existe centro de estudos estratégicos só de questões africanas, nós cá não temos centro de estudos estratégicos da nossa própria realidade, não se conhece África semse passar pela Europa, a melhor forma de beber conhecimento sobre a África é fazer uma digressão sobre Europa, eles tem mais conhecimento sobre a África, tem mais documentos sobre África, tem melhor apreciação sobre a África, não é à toa que grande parte dos assessores dos governos africanos são indivíduos de origem europeia, grande parte dos burocrátas que hoje compõem os governos africanos, fundamentalmente os mais fiéis aos regimes são indivíduos que de facto passaram pelas melhores Universidades europeias

De dizer que João Lourenço não tinha nada que ir ensinar aos Europeus, não tem nada para ensinar aos Europeus, o que tem de fazer como umestadista se quisesse ser prático e pragmático teria de definir portanto os espaços de influência da comunidade europeia em Angola por um lado e, aceitar adotar os valores Europeus que são de democracia, de direitos humanos, garantias de liberdade etc. 

Foi um discurso superficial, não um discurso novo, João Lourenço vai falar em um tom de voz mais lento ou mais acelerado mas não vai falar nada que o José Eduardo dos Santos nunca falou. 

J-E; O que podemos esperar sobretudo na questão das empresas Europeias. Há possibilidade de trazerem seu capital e investir em AngolaFalou muito o Presidente da República na questão dos conflitos regionais, quais resoluções podemos esperar da União Europeiaservirem de solução para o nosso continente?

Domingos Epalanga; Penso que os Europeus sabem o que querem,tem já uma política bem definida para o continente africano, discurso absolutamente nenhum de líderes africanos, resoluçõesabsolutamente nenhumas de blocos políticos ou econômicos sub-regionais africanos, resolução nenhuma da União Africana vai alterar a política que Europa estabeleceu para África. Os Estados africanos não sabem que políticas são estesnão percebem que políticas a União Europeia definiu para a África, por carência de Estudos, a União Africana não produz saber, a União Africana não investe no saber, a União Africana esta desprovidde meios para perceber os interesses que Europeus tem em África.

Vou dar-lhe um exemplo; a sede onde funcionava a União Africana era completamente velha, quem doou uma sede para a União Africana funcionar foram os os chinesessó para vermos o desinteresse dos líderes africanos sobre as questões africanas. O que os líderes africanos devem fazer é definirem os espaços, porque as políticas Europeias sobre África já existem, falta apenas perceber que urgeuma necessidade de definirem espaços ou campos cá em África onde os Europeus vão atuar.

Não estamos em condições de contarmos de forma proporcional com os Europeus, pois eles vão tirandosempre vantagens, médio e longo prazo, é a mentalidade ocidental, o ocidente não pensa numa legislatura como as lideranças africanasganhou eleições e pensa o país por apenas cinco anos, os Europeus tem projeto de nação, pensam seus países, suas organizações e seu contente por vinte, trinta e cinquenta anos, eles sabem o que será Europa daqui a cem anos

Portanto devíamos pensar a África na sua dimensão,o nosso continente é grande, e as lideranças africanas tem de pensar o nosso continente numa dimensão de grandeza, é aí onde nós falhamos e só com discursos bonitos não teremos êxito algum, teremos êxitos com boas práticas, vamos apostar na educação, vamos apostar na saúde, vamos apostar na diversificação da economia, vamos apostar na investigação científica, vamos produzir conhecimento lá onde não tivermos capacidade, vamos fazer aquilo que o Dr Jonas Savimbi dizia em "transferência de tecnologia", porque a roda já foi inventada, Angola não vai inventar roda, temos de queimar algumas etapas, não precisamos recuar na Europa medieval para estudarmos a construção da mentalidade ocidental ou Europeia, o que precisamos é de pegarmos em bons modelos que existem e construirmos uma África melhor e oferecermos a dignidade que se requer ao cidadão africano,  o contrário disso, vamos fazer discursos bonitos, o contrário vamos encher comícios com promessas utópicas mas na prática vamos ver africanos a morreram no mar mediterrâneo em busca de melhores condições de vida na Europa.

J-E; Como podemos encarar a situação dos emigrantes africanos no mar mediterrâneo para Europa, numa altura em que Europa encontra-se divido entre países réceptives à emigrantes e os que não, mas que também não se tocou muito neste tecla pelo Presidente da República no seu discurso?

Domingos Epalanga; Penso e é grave que, Europa tem hoje na sua agenda a questão de emigrantes africanos, Europa discote todos os dias a questão da emigração Áfricana para os seus países e estão quase divididos, e como sabemos os países europeus não são homogêneos do ponto de vista da estrutura social, políticas e econômicas, tem muitos pontos comuns mas também tem pontos frágeis, há países que são réceptives à emigrantes e há aqueles que não são réceptives. Se formos a ver os países que são mais réceptives à emigrantes estaremos a falar da Inglaterra, Alemanha, França, Bélgica etc, portanto são grandes economias e grandes países, as grandes características destes países e potências econômicas é a prosperidade dos seus povos e o bem estar social provoca um fenómeno que também os sociólogos e Politólogos devem estudar, provocam envelhecimento porque a taxa de mortalidade é extremamente baixo, parte da Europa está a viver o drama de envelhecimento da sua mão de obra e vai precisar desta juventude Áfricana para substituir a velha mão de obra Europeia, portanto é este bloco de países que aceitam receber emigrantes africanos, portanto é por uma questão estratégica, parece que as lideranças africanas não pensam até aí. Mas que também há um outro bloco de países que têm um acervo júvial ou a sua população é relativamente jovem e isso faz com que eles sejam um bocadinho restricivo em relação a recepção a emigrantes africanos por lado, mas por outro lado tem que ver com questões de nacionalismos, e aqui podemos colocar a questão da xenofobia, racismo e a questão do ultra-nacionalismo, por isso mesmo estar a ver que para aqueles países rigorosos no que concerne a não entrada de emigrantes africanos, são países hoje governados por partidos de extremas, ou extrema-esquerda ou extrema-direita, a esquadra está a tomar poder sobre os governos atuais, como estamos a ver em Portugal o PS, em França o Marcron, na Holanda e um pouco na Bélgica são sempre os partidos da esquerda, os partidos radicais a tomar posições estratégica. Para dizer que é uma questão complexa que requer de estudos profundo para melhor compreensão. Mas para nós africanos isto representa um mal porque a África está a perder os seus melhores filhos, a África está a perder sua mão de obra e não são analfabetos que saem dos países africanos para Europa, são jovens que sabem fazer alguma coisa e que tinham alguma coisa por prestar aos seus países, África está a devolver aos ex-colonizadores o que mais tem de precioso, se ontem devolvemos os nossos recursos e as nossas riquezas, hoje estamos a devolver o que é mais precioso, hoje estamos a devolver para os antigos colonizadores o homem, a pessoa, estamos a devolver para eles o epicentro de qualquer produção científica, o epicentro das soluções africanas estão na cabeça daqueles jovens que hoje estão a morrer no Mediterrâneo.

J-E; Qual seria sua recomendação ou mensagem a que deixas quer para as lideranças africanas, quer para nós jovens africanos?

Domingos Epalanga; A mensagem que passo aos líderes africanos é para travarem o fluxo emigratório, isso travam se com políticas públicas de emprego, de educação, de saúde, de segurança, de lazer não há uma outra forma de travarmos isso se não com políticas públicas, não serão discursos que vão travar isso. E para os jovens, que nunca percam o sonho de África apregoado por grandes pana-africanistas como; William Góes, Emir Sezar, Krugman, Amilcar Cabral, Agostinho Neto, Dr Jonas Malheiro Savimbi, Alvaro Holden Roberto e tantos outros que sonharam uma África melhor do que temos hoje.

 

O nosso entrevistado foi o Dr Domingos Epalanga, fazer de opinião e pensador livre.

 

António Dembo

Luanda, Angola

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